No combate à pandemia do novo coronavírus e da Covid-19, doença dele resultante, países e regiões que entraram em quarentena há mais tempo têm a tendência também de serem os primeiros a afrouxar as restrições de movimentação de pessoas. Tais medidas já estão sendo adotadas, especialmente na China e na Europa, dentro de um criterioso conjunto de balizadores, como a diminuição das taxas de contaminação, a garantia de sistemas médicos para atendimentos de pacientes graves e a massificação de testes de identificação do vírus.
O Brasil retardou a implementação das medidas de isolamento social, em função de o vírus ter aqui chegado depois e pela indecisão governamental sobre a melhor forma de fazê-la. Querer antecipar a volta às atividades econômicas com o argumento de não ficar atrás em relação ao resto do mundo é ignorar a dinâmica epidemiológica da doença. Além disso, aqueles países e regiões podem muito bem introduzir uma espécie de "selo de produtos e serviços que respeitem a quarentena", uma forma de proteção de mercado, muito danosa ao nosso País na economia pós-pandêmica.
É utópica a possibilidade? Alguns exemplos das últimas décadas dizem que nem tanto. No início dos anos 2000, consumidores foram convencidos a comprar veículos com motores flex-fuel, ao invés de carros movidos exclusivamente a etanol ou a gasolina. A liberdade da escolha do combustível esconde o fato desses motores terem menor eficiência do que aqueles que funcionam apenas com um ou outro combustível. No jargão industrial são como o pato: anda, voa e nada; faz tudo, mas não faz muito bem cada coisa.
A Alemanha é um exemplo de país que usa a rotulagem ambiental para melhor vender seus produtos e serviços e convencer os consumidores que vale a pena pagar mais pela garantia da proteção ao meio ambiente e uma cadeia mais sustentável de produção. Logo após o acidente com a usina atômica de Fukushima em 2011, declarou que não mais utilizará energia de origem nuclear, cujas usinas serão desligadas até 2022, mesmo com o maior custo que isso acarretará.
São exemplos históricos. Economia não é ciência exata, não é como o cálculo termodinâmico da energia que pode ser obtida de algum material. Menos como ideia ou proposta, o selo comercial e industrial de proteção a quem respeitou a quarentena é assunto para discussão e reflexão, pois a propaganda continua sendo a melhor arma do negócio.