09 de julho de 2026
Articulistas

Vida ativa

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 2 min

Nos escritos dos pensadores modernos como Hannah Arendt e Byung-Chul Han o leitor encontraria o título deste artigo e outros similares em latim, como é o costume. Sendo assim, diríamos que a Vida activa e a Vida contemplativa têm sido mencionadas ora uma, ora outra como prevalentes nas sociedades modernas. Arendt procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa. Na tradição cristã não se preza uma prevalência de uma sobre a outra, mas uma mediação entre vida ativa e contemplativa. Tentaremos condensar uma terceira posição: a de Byung-Chul Han, filósofo coreano contemporâneo.

Resumidamente, para o filósofo coreano, o animal laborans pós-moderno não é desprovido de ego, de individualidade, como querem alguns. Pode ser tudo, menos um ser passivo. Se renunciasse a sua individualidade, teríamos ao menos a serenidade de um animal. A perda moderna da fé tornou a vida do homem radicalmente transitória. Nada promete de duração e subsistência, razão pela qual o ser humano torna-se desmotivado e inquieto. Igualmente, as religiões, enquanto técnicas fanáticas, suprimindo o medo da morte, tornaram-se obsoletas, empobrecendo a vida e o trabalho. Na falta de uma explicação mais convincente para a existência, surge a pressão para valorização incondicional da saúde. Nietzsche dissera que após a morte de Deus a saúde se impõe como uma deusa. Tudo porque não há um horizonte que se eleve acima da falta de atratividade da vida.

Frente a essa transitoriedade da existência, reagimos com hiperatividade e histeria. Pessoas acabam sofrendo de depressão e outras doenças nervosas, desenvolvendo sintomas semelhantes aos apresentados por indivíduos nos campos de concentração.

O contraditório fica com Arendt que não oferece alternativa efetiva para o statu quo. Apenas constata resignada que a capacidade de agir fica restrita a poucos, o que pode ser irrelevante para o futuro do mundo, mas não o é para o futuro do homem.

Pode ser que a atividade de pensar até levasse a palma sobre as demais, se nenhum outro critério senão a experiência de estar-se ativo, se nenhum outro gabarito senão a medida de pura atividade fosse inerente às atividades da vita activa. A contemplação tornou-se experiência destituída de significado e o pensamento passou a ser função do cérebro, com o resultado descoberto de que os instrumentos eletrônicos exercem função melhor que o homem.

Byung-Chul Han, assumindo posição inversa, assegura que Arendt não conseguiu ver que a perda da capacidade contemplativa, em razão da absolutização da vita activa, é a responsável pela histeria e nervosismo da sociedade ativa moderna, praticamente enferma e desgastada. "A vida hoje se transformou num sobreviver". O próprio Nietzsche adverte: por falta de repouso caminhamos para uma nova barbárie.