Dentre as muitas sensações causadas pelo isolamento social, está a carência. Sortudos são aqueles que podem dividir a casa com amigos, família, cara-metade. Quem está sozinho sofre um pouco mais. Talvez por isso o número de adoções de cachorros e gatos têm aumentado pelo mundo.
Quanto tempo suportamos a solidão da quarentena? Para o diretor de filmes Nathan Sanches, foram dois meses. Decidido em ter um amigo de quatro patas, fez várias visitas ao Pet Shop Vito e Carmela até encontrar a Banana. "Tem muita gente que está em casa, fazendo todas as precauções de higiene e segurança, mas é preciso lembrar que não é só disso que sofremos. É tempo de cuidar da saúde mental e emocional também. E acho que para isso os animais são grandes aliados".
Assim como Nathan, a dentista Paula Leão que adotou o Thor, afirma que o período isolado pesou na decisão. "Eu estava planejando uma adoção só pra depois da quarentena, mas estar sozinha com a minha outra cachorrinha, de 13 anos e cega, fez com que a adoção fosse antecipada", admite. "Não chorei mais de tristeza desde que ele chegou".
"Pude observar que quem mora sozinho e tem animais de estimação tem vivido a quarentena com maior adaptação, mais esperança e perspectivas futuras", diz a psicóloga Elza Caricati. "Durante períodos normais, cuidar de um animal pode ser visto como uma obrigação. Mas agora, dar banho, passear, cuidar está sendo visto como algo prazeroso. Uma ocupação", diz Elza.
A professora Angela Santiago conta que a quarentena impulsionou a decisão de adotar o Patrick, que agora faz companhia para sua outra cachorra. Para Samantha Jones, mãe do Pedro e da Nina, o recém-adotado Jack foi uma bênção. "Ter um cachorro em casa na quarentena é ter um anjo de quatro patas que late."
"O cão e o gato ajudam a diminuir a ansiedade e a depressão dos donos. Eles sentem a energia que o tutor sente e as características ruins são diminuídas", diz a veterinária Yael Feferbaum.
Nos Estados Unidos, o aumento no número de adoções foi significativo. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, os funcionários do abrigo Friends of Palm Beach County Animal Care and Control, na Flórida, comemoram a adoção de todos os seus animais. O canil das imagens é um dos três edifícios que pertencem ao grupo - no entanto, foi a primeira vez que algo assim aconteceu.
"Sabemos que ter um canil vazio pode ser algo efêmero, mas queríamos celebrar o sucesso enquanto esse momento durar. Também vimos uma diminuição nos animais de entrada, o que tem ajudado", disse Elizabeth Harfmann, gerente de Divulgação do abrigo. O mesmo aconteceu no norte do país, no Chicago Animal Care and Control (CACC). "De 20 de março a 23 de abril tivemos 676 animais retirados de suas baias. Foi a primeira vez que ficamos sem animais para adoção", contou o diretor interino, Mamadou Diakhate.
A Espanha também teve um aumento de procura de adoções, especialmente de cachorros - levá-los para passear era uma das poucas saídas permitidas pelo governo durante o confinamento. "Apesar disso, duvido que as associações protetoras de animais tenham dado irresponsavelmente cães para adoção nesse período", informou a Organização Espanhola Sem Fins lucrativos Huellas Protectora Avila.