Parte da população está desrespeitando o isolamento social e está imaginando que está em férias. Com essas frases o governador Doria e o prefeito Gazzetta (ambos do PSDB) justificaram, respectivamente, a prorrogação da quarentena no Estado de São Paulo. Como a essa parcela fosse outorgada o direito de escolha.
Muitas pessoas estão se sentindo ofendidas com a frase "fique em casa'', repetida à exaustão pelo extenso universo midiático. Não porque elas sejam contrárias ao isolamento social como forma de prevenir a disseminação da Covid-19 e sim porque são obrigadas a continuar trabalhando e portanto, deslocando-se, sobretudo, em transporte de massa o que faz aumentar os riscos de contaminações. Somente na indústria são aproximadamente 11 milhões de trabalhadores, segundo o IBGE. Já o agronegócio emprega cerca de 19 milhões de pessoas no Brasil. Temos ainda a construção civil e outros tantos prestadores dos mais diversos serviços.
E o que dizer da grande população de vulneráveis que as centenas de milhares saem às ruas e se aglomeram em busca de uma esmola governamental, ora denominado 'auxílio emergencial'. Se humilham em longas filas, atravessam madrugadas, se submetem à chuva e ao sol e o que se ouve em tom de apelo é: fique em casa!
A ofensa se torna ainda maior quando lhes falam: 'não precisam sair de casa, vocês podem fazer tudo pela internet''. Oras bolas, o sujeito não tem nem para o cigarro, o passe de ônibus. Smartphones e iphones, tão comuns para a grande maioria, não pertencem a este universo e a internet muito menos. Já os que podem e conseguem ficar em casa são 'premiados por bom comportamento' e, por isso, terão suas contas de água e luz elevadas ao fim do mês devido ao aumento de consumo.
Se querem de fato combater a explosão da Covid-19, devem fazer isso de forma homogênea em todo país. Se querem manter todas as pessoas em casa, lhes deem condições para isso. Os governos, em todas suas esferas, precisam suspender a cobrança da tarifa de água, energia, gás e garantir uma renda minimamente decente para que uma família, atendendo critérios socioeconômicos, sobreviva durante a quarentena.
Vários países adotaram essas medidas para mitigar danos à população, entre eles Itália, Espanha, França, que suspenderam cobrança das taxas dos serviços básicos. Por aqui, o Estado simplesmente se eximiu da execução direta dessas atividades essenciais à população, passando a tarefa para a iniciativa privada. Agora em tempos de crise fica evidente o quanto danoso foi privatizar serviços estratégicos, aliás, o precursor da privatização no pais foi o PSDB. E se existe algum desrespeito, Doria, este foi causado por seu partido, que há 26 anos governa o Estado de São Paulo destruindo serviços públicos e a saúde, hoje à beira de um colapso foi entregue a iniciativa privada por meio das Organizações Sociais de Saúde criadas por lei pelo PSDB em 1998.