Muito antes do coronavírus, existiam as conchetas, apelido dado a mulheres italianas ou de família da Itália que, na São Paulo do século passado, viviam conversando pelos bairros de imigrantes europeus. "Chama conchetas por isso, é aquela coisa de [bairro da] Mooca, falando uma com a outra, sabendo da vida da outra", diz Silmara Ciuffa, 52 anos, fotógrafa que é uma das três fundadoras de um grupo que liga para idosos que estão isolados em suas casas, simplesmente para papear - o nome é referência a esta figura do imaginário paulistano.
A iniciativa é da operadora de saúde Prevent Senior, que tem como público alvo pessoas mais velhas, justamente um dos principais grupos de risco do novo coronavírus. As atividades começaram no final de abril e atualmente o grupo tem 12 integrantes contratados pela empresa. "Fomos treinados para ouvir e criar um diálogo que conforte nossos amigos do outro lado da linha", explica Teresa Gioia, 58 anos, que é produtora musical e também fundadora.
Para o trabalho, foi criado um sistema, integrado com a database da seguradora, onde os atendentes anotam fatos relevantes das conversas que tem, por exemplo informações sobre o histórico de saúde, que podem ajudar num diagnóstico futuro. Uma das preocupações, claro, é o cuidado médico. Por isso, os ouvintes sempre ficam atentos a sinais de alerta, mesmo este não sendo o foco principal do programa.
Silmara conta sobre a vez que conversou com uma beneficiária que estava no Brasil porque veio fazer um procedimento clínico relacionado a um câncer de mama, e não pode voltar a Los Angeles (EUA), onde mora, em razão da pandemia.
Com a filha e uma vida nos EUA, ela dizia que seu remédio para depressão havia acabado e que não tinha mais vontade de viver. Foi então que a fotógrafa entrou em contato com um médico da seguradora e conseguiu uma receita virtual. "[Ela] conseguiu a medicação, está super bem, converso todo dia com ela, é uma das que eu sempre ligo. Ela me manda foto das crianças que ela cuidava [como babá nos EUA]", conta.
Uma outra vez, Silmara conversou com uma senhora que dizia ter um dores na barriga. A fotógrafa lhe indicou uma consulta por telemedicina, e o médico a encaminhou ao pronto-socorro, onde foi descoberto que ela estava com coronavírus. "Na hora que ela fez a tomografia, já estava com o pulmão bem comprometido e, óbvio, foi internada. Dias depois teve alta. Ela não tinha nenhum sintoma da Covid-19, era só um desconforto abdominal", completa.
Lllian Braga é comissária de bordo aposentada e vive sozinha, com dois cachorros. Conta que gosta de abordar diferentes assuntos nas conversas. Certa vez, puxou papo sobre a vida amorosa de uma senhora de 78 anos. "Ela tinha dois namorados e falava assim: Ai, agora como ficamos distantes não dá mais para a gente se ver e um deles deixou de ligar para mim, sinto muita falta. Fiquei passada. 'Eu conheci ele na rua', ela me disse. Como assim!?", lembra rindo sobre o diálogo.
Lillian conta que, no seu caso, o trabalho é uma via de mão dupla completa, já que também está sozinha em casa e pode conhecer pessoas novas e fazer novos amigos. Assim como colegas, diz que a enorme maioria das conversas é relacionada ao cotidiano dos beneficiários, histórias do passado e da família. Nazareth lembra a vez que debateu sobre o quão alto uma galinha poderia voar, porque uma senhora jurava que estava vendo uma, marrom, da janela de seu apartamento no sexto andar. Ela relata o que ouviu: "Eu abri [a janela] e ela estava lá. Como essa galinha veio até aqui? Será que ventou? Não. Mas pode ter ventado sem eu ter visto".