Brasília - O Supremo Tribunal Federal (STF) fechou o cerco contra o chamado "gabinete do ódio", grupo de assessores do Palácio do Planalto comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-PR), filho do presidente Jair Bolsonaro. Em uma operação determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news, a Polícia Federal apreendeu documentos, computadores e celulares em endereços de 17 pessoas suspeitas de integrar uma rede de ataques a integrantes da Corte e convocou oito deputados bolsonaristas a depor. Considerada "abusiva" pelo Palácio do Planalto, a ação da PF estremeceu ainda mais a relação entre magistrados e o Palácio do Planalto, que avalia um contra-ataque.
No despacho que ordenou a operação, Moraes definiu o gabinete do ódio como "associação criminosa", mas não incluiu Carlos Bolsonaro ou seus fiéis aliados do Planalto como alvo da operação desta quarta (27). As referências ao grupo, no entanto, indicam que eles podem ser alvo numa fase futura da investigação.
O ministro apontou ainda indícios de que empresários financiam de forma velada a disseminação de fake news e conteúdo de ódio contra integrantes do STF e outras instituições. Segundo Moraes, há "fortes indícios" de que os investigados cometeram crimes de calúnia (6 meses a 2 anos de prisão), difamação (3 meses a 1 ano), injúria (1 a 6 meses), além de violações previstas na Lei de Segurança Nacional.
Entre os financiadores do grupo citados pelo ministro do STF estão os empresários Luciano Hang, da rede Havan; Edgard Gomes Corona, dono da rede de academias Smart Fit; Otavio Fakhoury, sócio do site Crítica Nacional; o humorista Reynaldo Bianchi Júnior e o coordenador do Bloco Movimento Brasil, Winston Rodrigues Lima. Eles foram alvo da operação de ontem.
O ministro incluiu na decisão mensagem de Corona em grupo do WhatsApp em que o empresário pede dinheiro para disseminar publicações nas redes sociais. "Temos de impulsionar estes vídeos. Precisamos de dinheiro pra incestir (sic) em mkt", diz o texto da postagem no grupo "Brasil 200 Empresarial". O comentário faz referência a vídeos contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Os empresários tiveram seus sigilos bancários quebrados.
O despacho cita ainda trechos de depoimentos dos deputados Joice Hasselmann (PSL-SP) e Alexandre Frota (PSDB-SP) na Comissão Parlamentar de Inquérito das Fake News. Os dois são ex-aliados de Bolsonaro e esmiuçaram a atuação do gabinete do ódio em reuniões no colegiado.
"Recaem sobre os indivíduos aqui identificados sérias suspeitas de que integrariam esse complexo esquema de disseminação de notícias falsas por intermédio de publicações em redes sociais, atingindo um público diário de milhões de pessoas, expondo a perigo de lesão, com suas notícias ofensivas e fraudulentas, a independência dos poderes e o Estado de Direito", escreveu Moraes.
A decisão de Moraes também atingiu seis deputados federais e dois estaduais, incluindo Carla Zambelli (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF), duas das parlamentares mais próximas de Bolsonaro. Eles não foram alvo de mandados de busca e apreensão, mas o ministro determinou que sejam ouvidos em dez dias e que suas postagens em redes sociais sejam preservadas.