Vamos a mais um comentário espinhoso. Me concentro na discussão epidemiológica e sanitária do que foi adotado pelas autoridades até aqui. A reabertura gradual aceita pelo governo do Estado pode ser um tiro no pé em relação ao Interior. Isso se o olhar for observado para as "premissas" reiteradas, todo dia, pelo próprio Estado para manter o distanciamento social até aqui (maio 2020). Ou, então, as premissas ditas como técnico-sanitárias eram pura retórica. O primeiro ponto é que o Estado, finalmente, reconhece que não havia como tratar a metrópole como Interior. A disseminação regional do vírus na população naturalmente já seria muito mais lenta (e ainda o é), na comparação com os milhões de habitantes, geografia, sistema de transportes e mobilidade social da Capital.
Porém, se a tal fase de pico ainda não veio e poucas medidas efetivas foram realizadas para aumento de leitos UTI (pelo menos na região de Bauru), mesmo após dois meses da doença, o que vem pela frente é preocupante. Com exceção de cidades como Franca, onde o isolamento "medido" ficou acima dos 50%, por exemplo, em regiões como Bauru o decreto foi descumprido por boa parte da população. Mais da metade dos paulistas na região de Bauru saiu de casa, conforme os números "oficiais". De qualquer forma, segundo os especialistas, o isolamento foi, ainda assim, capaz de conter a curva de crescimento epidemiológico. Mas isso teve forte influência do baixíssimo índice de contágio até aqui.
Em live da quarta-feira de 27/05, onde bradou que não toma decisão sob pressão e "apenas baseado em critério técnico de saúde", o prefeito Gazzetta afirmou que - sem isolamento - o estudo da Fiocruz apontou que Bauru teria 1.436 registros da doença até 23 de maio último, com 60 mortes previstas. Mas, mesmo com o isolamento parcial, o registro oficial é de 13 mortes para 245 registros. Oficial porque os especialistas repetem que a subnotificação é gigantesca! E a testagem irrisória!
Mas o que virá pela frente é muito, muito preocupante! O sistema de saúde de Bauru tem apenas 38 leitos UTI (Hospital Estadual) pra 38 municípios. Os 20 respiradores adicionais anunciados não vieram e os 40 leitos de retaguarda no HC são, depois da demora, alento para amenizar o quadro. Mas a ocupação no HE nas últimas semanas tem se mantido acima de 80%. E ainda não estamos no pico da doença, conforme especialistas!
De outro lado, o inquérito sorológico (em andamento) confirma que o nível de contágio na população ainda é muito baixo. Ou seja, a Covid vai efetivamente se espalhar em guetos, vilas, cantos, lojas e casas mais na frente. E com o contágio disseminado na maioria da população, os pedidos por internação com síndrome respiratória aguda grave (SRAG) vão aumentar! É matemática simples. Foi assim nos outros lugares.
Aí se pergunta: qual será o resultado do efeito da soma da (?): - liberação de atividades não essenciais antes do pico - leitos UTI com alto índice de ocupação no setor público há semanas. - disseminação do contágio efetivo crescente nas cidades a partir de agora. .... (?) Ah, detalhe, para atingir as "diretrizes" do nível 3 da flexibilização anunciada pelo Estado, o governo paulista aceitou incluir leitos privados na conta. E eles não são oferecidos para quem mora no Parque Jaraguá, é sabido! Outro detalhe: mesmo assim está errado (de novo) o dado da Prefeitura de Bauru para compor o índice de flexibilização. Bauru não tem os 80 e poucos leitos UTI utilizados na conta! O HE só agora tem 38 UTI Covid, a Unimed 30, a Beneficência 5 e o São Francisco 3. São dados oficiais.
Daqui a 15 dias saberemos como começa a refletir o comportamento social diante da nova fase.