09 de julho de 2026
Entrevista da semana

'Pressão na rede pública de saúde deverá dobrar após pandemia'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 8 min

Diariamente, Antonio Rugolo Júnior sai de casa bem cedo e só volta tarde da noite. As várias horas dedicadas ao trabalho mostram a seriedade do homem por trás da gestão das duas únicas unidades públicas a se tornarem referência, em Bauru e, pelo menos, outras 17 cidades da região, para o tratamento de pacientes graves com Covid-19: os hospitais Estadual (HE) e das Clínicas (HC).

Aos 63 anos, o médico pediatra e presidente da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp) tem orgulho do seu trabalho. Inclusive, ele conta que sente prazer em ajudar o próximo.

A pandemia do novo coronavírus permitiu que tal vocação se tornasse ainda mais imprescindível. Porém, segundo Rugolo, depois que tudo passar, a pressão em cima da rede pública de saúde deverá dobrar, devido à demanda reprimida de consultas, exames e cirurgias eletivas.

Com a educação e a disponibilidade de sempre, ele reservou um tempo em meio à correria da situação atual para conversar com a reportagem do JC nesta última semana. A seguir, Rugolo revela como os hospitais sob a sua gestão se planejam para o futuro e faz, também, um balanço do cenário hoje. Confira:

Jornal da Cidade - O senhor tem uma rotina atribulada. Qual é a sua receita para se manter disposto e encarar o atual cenário?

Antonio Rugolo Júnior - Eu moro em Botucatu, mas viajo muito. Chego em casa tarde da noite e, geralmente, saio bem cedo. Porém, treino duas vezes por semana, sempre às 6h. Gosto do que faço e sinto prazer em ajudar o próximo.

JC - Nasceu em Botucatu mesmo?

Rugolo - Eu nasci em Laranjal Paulista, mas nunca morei lá. Nos primeiros anos, vivi em Piracicaba. Em seguida, me mudei para Sorocaba e, de lá, comecei a estudar Medicina na Unesp, em Botucatu, onde também concluí a residência em Pediatria. Em 1985, me contrataram como professor desta área, especificamente, da Neonatologia. Inclusive, ajudei a montar a UTI Neonatal. Trabalhei neste local a vida inteira e cheguei a chefiá-lo. Eu também fiz mestrado na Escola Paulista de Medicina (EPM), em São Paulo, e doutorado na Unesp mesmo. Em 2000, me tornei diretor financeiro da Famesp. Em 2003, virei presidente até 2005, ano em que assumi a Superintendência do HC de Botucatu. Na época, acabei acumulando este cargo com o de diretor da Faculdade de Medicina por quatro meses. Em 2009, voltei para a Famesp e passei a cuidar dos contratos de gestão da fundação. Implantei o AME de Bauru, Tupã, Itapetininga e Ourinhos. Fui vice-presidente da Famesp até 2014, quando ascendi à presidência e não mais deixei tal função.

JC - Pelo visto, a sua primeira experiência enquanto gestor se deu depois de formado em Medicina...

Rugolo - Na verdade, o meu pai tinha uma transportadora e ficou doente. Quando eu ainda era adolescente, precisei tomar conta da empresa. Acabei aprendendo um pouco sobre gestão e sempre utilizei esta experiência na minha carreira de médico. Por este motivo, também assumi o cargo de diretor do Centro de Terapia e Diagnóstico do HC de Botucatu. Na ocasião, fiz três cursos voltados à administração hospitalar.

JC - Durante a sua carreira, o senhor passou por várias epidemias, como a de H1N1, em 2009. A de agora é a pior delas?

Rugolo - Sem dúvida alguma. Antes disso, na década de 80, quando eu já trabalhava como pediatra, enfrentei a meningite. Muitas crianças pegaram e morreram, mas tal epidemia não chega nem aos pés da atual.

JC - Quais são as suas fontes para traçar as estratégicas de enfrentamento à Covid-19 dentro dos hospitais que o senhor administra?

Rugolo - Em primeiro lugar, as oficiais: Ministério da Saúde e Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Baseados em especialistas, ambos os órgãos emitiram vários protocolos de atendimento e nós respeitamos. Seguimos, ainda, as sociedades médicas, como a de Infectologia. Por eu ser de Botucatu, também estou em contato direto com Carlos Magno Fortaleza, do Comitê de Contingência do Coronavírus em São Paulo.

JC - Como estabelecer diretrizes de atuação envolvendo uma doença cuja evolução ainda é estudada?

Rugolo - É um desafio e tanto. Nós precisamos avaliar as nossas ações diariamente. No Hospital Estadual, por exemplo, já mudamos o protocolo de tratamento por três vezes. No início, não havia qualquer recomendação, apenas a intubação. Depois, entramos com hidroxicloroquina e um antibiótico. Na segunda mudança, associamos outro medicamento deste tipo. Agora, a orientação geral é administrar somente um antiviral e dois antibióticos. Em alguns casos, também usamos corticoide e anticoagulante.

JC - O senhor precisou acalmar os ânimos dos profissionais da saúde em algum momento da pandemia?

Rugolo - No início, sim. Enfrentamos problemas com o pessoal da área administrativa, que tinha medo de entrar no Hospital de Estadual. Eles achavam que deveriam usar os mesmos EPIs das pessoas que trabalham diretamente com pacientes suspeitos ou confirmados de Covid-19. Hoje, o cenário mudou. Além disso, nós disponibilizamos profissionais da Psicologia e Psiquiatria para atender quem precisar de ajuda.

JC - Como pediatra, o que senhor tem visto sobre o novo coronavírus em crianças?

Rugolo - Felizmente, as poucas que pegam são assintomáticas.

JC - Mesmo com tudo pronto, o HC de Bauru não conseguiu receber pacientes por conta de um único documento. A burocracia atrapalha o enfrentamento à doença?

Rugolo - Esta história do HC foi uma fatalidade. Pedimos a mudança do endereço do CNPJ há mais de 15 dias, mas o site estava com problemas e não esperávamos que demorasse tanto. De forma geral, o enfrentamento à pandemia agilizou os trâmites. Por conta dela, deixaram de exigir uma série de documentos para autorizar a abertura dos hospitais de campanha, por exemplo. Além disso, os serviços públicos não precisam mais abrir licitações e processos seletivos neste momento.

JC - A Famesp sempre trabalhou com o conceito de humanização. Como colocá-lo em prática no atual cenário, sendo que as visitas estão proibidas?

Rugolo - Na Maternidade, no Estadual e no Base, o horário de visitação era ampliado e sempre permitíamos a entrada de um acompanhante. Infelizmente, tivemos de retroceder. Não dá para afirmar quando nós voltaremos ao normal, porque o vírus continuará circulando. Então, compramos vários tablets para os pacientes contatarem as suas respectivas famílias.

JC - Desde o início da pandemia, a Famesp criou uma espécie de comitê de crise. Como ele funciona?

Rugolo - Nós temos um comitê de crise antes mesmo de o Estadual se tornar referência, em toda a região de Bauru, para o tratamento de pacientes com Covid. Paralelamente, cada unidade administrada por nós fez o mesmo. Os grupos se reúnem diariamente para discutir as principais dificuldades. No início, era a falta de EPIs. Hoje, nós já nos adaptamos. Porém, nos preocupamos diante das incertezas envolvendo a evolução da doença.

JC - Falando nisso, o senhor acredita que o pico já chegou ao Interior de São Paulo?

Rugolo - Os epidemiologistas estimam que o ápice da doença chegará a partir da primeira semana de junho.

JC - Bem no início da flexibilização dos serviços não essenciais, em Bauru. O senhor, então, é contra tal medida?

Rugolo - Se isso não for feito de uma forma vigiada, a situação deverá piorar. Tenho quase certeza de que as pessoas não respeitarão o distanciamento social. Creio que também haverá um relaxamento quanto ao uso de máscaras e álcool em gel.

JC - O senhor viaja bastante e não sai dos hospitais que administra. Tem medo de se infectar?

Rugolo - Não. Eu tento me cuidar. Como viajo muito, tenho um motorista. Por isso, uso máscara e álcool em gel até dentro do carro. Em casa, tiro o sapato antes de entrar e troco de roupa. Eu sou pai de uma criança de 5 anos e preciso redobrar os cuidados.

JC - A pressão na rede pública de saúde aumentará após a pandemia?

Rugolo - Sem dúvida alguma, porque a demanda está represada. Embora o Estadual tenha flexibilizado para cirurgias eletivas e consultas, a unidade enfrenta uma dificuldade grande, porque os pacientes, geralmente, chegam de van ou ônibus. Os prefeitos querem evitar aglomerações e as pessoas acabam desistindo destes procedimentos. Logo, quando tudo se acalmar, a pressão na rede pública de saúde deverá dobrar em relação ao cenário anterior à pandemia.

JC - Como a Famesp se prepara para o aumento da demanda?

Rugolo - Como os médicos dos ambulatórios e das cirurgias eletivas não foram dispensados destes serviços, eles ligam para os pacientes, promovendo uma espécie de teleconsulta. Se os profissionais sentirem que eles precisam de atendimento presencial, pedem para se dirigirem até as suas respectivas unidades.

JC - Os hospitais públicos estão muito longe dos privados em relação ao enfrentamento da Covid-19?

Rugolo - No início, os hospitais públicos se atrasaram para implantar os protocolos de tratamento, porque a burocracia não era tão flexível. Agora, ambos estão alinhados.

JC - Por fim, qual é a mensagem que o senhor deixa para os profissionais da saúde?

Rugolo - A minha mensagem é de agradecimento. Sem eles, nós não conseguiríamos enfrentar a pandemia. Sou grato, também, ao pessoal da Famesp, que montou o HC de Bauru em tempo recorde.

O QUE DIZ O GESTOR

"Gosto do que faço e sinto prazer em ajudar o próximo"

"Nós precisamos avaliar as nossas ações diariamente. No Hospital Estadual, por exemplo, já mudamos o protocolo de tratamento por três vezes"

"Os epidemiologistas estimam que o ápice da doença chegará a partir da primeira semana de junho"

"Se isso [flexibilização dos serviços não essenciais] não for feito de uma forma vigiada, a situação deverá piorar"

"No início, os hospitais públicos se atrasaram para implantar os protocolos de tratamento, porque a burocracia não era tão flexível. Agora, ambos estão alinhados"

"Sem eles [profissionais da saúde], nós não conseguiríamos enfrentar a pandemia"