08 de julho de 2026
Articulistas

Ageísmo

Maria da Glória de Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Essa palavra vem do inglês age, que significa idade. Geralmente, ageísmo e discriminação por idade são usados como sinônimos. Ainda que reparar na idade de um indivíduo não seja ofensivo, agir por estereótipos baseados em idade é sem dúvida um preconceito, que infelizmente a sociedade aceita passivamente. Propus-me a falar sobre isso em virtude da situação que os idosos estão atravessando nesta pandemia. Um artigo de Gilles Lapouge no Estadão, de 26 de maio de 2020, levou-me a esta decisão que já rondava meus pensamentos há dias.

Quando o ex-ministro Teich da Saúde manifestou-se a favor primeiro pelos mais jovens e só depois pelos idosos nesta pandemia, vi logo um ranço nazista na colocação. Por que essa preferência etária? Não ignorávamos o preconceito em relação aos idosos em todas as sociedade do mundo. Daí, pude confirmar essa verdade com o artigo de Lapouge, ao escrever que os velhos não têm um grande poder de fogo. Palavras dele: nos asilos onde vivem, não dizem nada, e se contentam em morrer. Todos já desconfiávamos que os idosos estão sendo eliminados das estatísticas de morte dessa pandemia, uma forma de fazer acreditar que os países atacados pelo vírus estão administrando bem esta nova provação. Querem fazer crer que sua medicina é de ótima qualidade, seus hospitais excelentes e seu sistema de saúde trata todos sem privilégios. Tudo falso. Aqui no Brasil, o ex-ministro Mandetta, antes do demissionário Teich, já havia também demonstrado sua indiferença com os velhos. Entendem agora o palavrão usado no título do artigo?

Depois que os idosos começaram a morrer às centenas, para evitar que as medidas adotadas engrossassem o caldo, então eles passaram a entrar nas estatísticas. Claro, num mundo movido pelo dinheiro, para que se preocupar com velhos que pouco significam para a economia? Lembro-me de uma vez, ao tempo em que lecionava na UNESP, de um diálogo com uma colega a respeito de medidas de assistência social. Ao indagar minha posição a respeito do destino de algumas benesses, fui censurada por ter incluído também os idosos. O argumento: as crianças estavam aí, esperando por um mundo melhor, os jovens, idem, queriam um país com mais oportunidades, ao passo que os velhos... bem, esses já estavam mais pra lá do que pra cá! É fato, há coisas mais importantes que a vida, não é mesmo? Como salvar este país para seus filhos e seus netos? Velho não reclama mesmo, e mesmo que reclamasse quem iria dar-lhe ouvidos?

Felizmente, nem todos pensam assim. Há como evitar algumas consequências que o palavrão ageísmo pode causar - perda da autoestima, depressão, demência etc - criando opções de atividades para inserir o idoso na sociedade.

Em Bauru, a Unesp, segundo pude consultar, mantém a UNATI (Universidade Aberta à Terceira Idade), preocupada com o desenvolvimento de três atividades: arte, avaliação física e atividade física; a Unisagrado mantém a UATI: no segundo semestre de 2019 desenvolveu 23 oficinas, todas relacionadas à saúde, cultura, esporte, lazer, dança, ginástica etc.

Como está lá no Washington Post, os EUA perdem seus velhos porque são frágeis, mas morrem também de outra epidemia mais grave - a desvalorização da vida dessas pessoas. Drummond estava certo: "Sobrevivente incomoda mais que fantasma".