09 de julho de 2026
Articulistas

A vingança das letras

Neto Del Hoyo
| Tempo de leitura: 2 min

Se você foi como eu, do tempo em que as notas nos boletins escolares eram representadas por letras ao invés de números, sabe muito bem como é difícil transformar um 'E' em 'B' sem gerar desconfiança e quão frustrante é perceber que a ilusão dura pouco. Quando a rasura passava pelos pais, era desmascarada assim que bendito voltava para a escola. Mais cedo ou mais tarde, a verdade aparece. Uma única letra tem o poder de mudar tudo. Que diga as Danielas, tantas vezes equivocadamente chamadas de Daniele. Para consertar esse descuido, inventamos as 'Danis'. Uma injustiça que muito tempo tirou o sono do guitarrista da banda 'Biquíni Cavadão', Carlos Coelho. Autor do sucesso 'Dani' (Só penso nela/Quem é ela/O nome dela/É Daniela), ele não sossegou até voltar ao 'Caroline Café', no Rio de Janeiro, para perguntar qual era o nome completo da garçonete que inspirou a música composta numa mesa daquele mesmo bar junto com o amigo Manno Góes. "Daniela Smith", respondeu a moça. E Coelho pode voltar a dormir em paz por não ter cometido o pecado de errar o nome da musa inspiradora identificada apenas como 'Dani' pelo crachá.

Mesma sorte não teve o ex-jogador Luís Sílvio, revelado no Marília. Contratado como estrela pela Pistoiese, que faria sua estreia na 1ª divisão italiana em 1981, viu seu sonho ir por água abaixo por equívoco linguístico. A Pistoiese pensava que havia contratado um 'punta', que para eles trata-se de um centroavante forte o suficiente para aguentar pancadas. Mas o jovem era um 'ponta' veloz e franzino. Uma vogal bastou para que o 'ponta' que não era 'punta' se transformasse num dos maiores fracassos do futebol italiano.

Não bastassem os equívocos e malandragem juvenil, as letras viraram armas nas chamadas hashtags com erros de ortografia, cada vez mais populares. A tática foi usada nas eleições dos EUA, em 2016, e agora por apoiadores de Jair Bolsonaro. Uma delas foi '#FechadoComBolsolnaro', que leva um 'L' proposital a mais no sobrenome do presidente. A tática é simples: usar uma letra errada para mudar as hashtags sem alterar a mensagem e mantê-la entre os assuntos mais falados - os tais Trending Topics. Simples, infelizmente eficaz e certamente desleal. Principalmente por ser estratégia comum na ação de bots - os tais programas/robôs que realizam tarefa repetitiva nas redes sociais e que espalharam fake news durante as eleições de 2018.

Não sei você, mas eu já entendi que deturpar a atribuição de uma letra ou usar seu poder para obter vantagem, não é uma opção. As tentativas frustradas de rasurar os boletins nos tempos de colégio me asseguram que não dá para enganar o tempo todo. Pode não ser crime, mas garanto que não compensa. A verdade aparece, mais cedo ou mais tarde.