09 de julho de 2026
Articulistas

Nem robô nem macaco

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Jeito diferente não há, viver é colocar o barco no mar. Às vezes tranquilo, outras tempestuoso, todo marinheiro sabe o perigo de navegar. Sobretudo que não ouça o canto das sereias. Convite assim traiçoeiro arrebata o navegante que, enfeitiçado, deixa o barco contra os rochedos se despedaçar.

Conta-nos a mitologia que Orfeu, músico divino, ao perceber o canto hipnótico, tangeu tão forte e divinamente a sua lira que, outra música não se ouvindo, pôde ele se salvar. Ulisses, o herói da Odisseia, também venceu o feitiço do canto sirênico Não porque tivesse dom musical ou por outra virtude qualquer. Ao contrário, reconhecia-se fraco e falível. Tinha plena consciência de que se entregaria docemente à morte quando chamado fosse pelas musas traiçoeiras. Por isso, ordenou aos subalternos que o amarrassem com cordas redobradas ao mastro da embarcação. Orfeu venceu a sedução por ser mais; Ulisses, por ser menos. Um, músico talentoso; o outro apenas alguém consciente da própria fraqueza.

Assim é a nossa odisseia de cada dia, tentados que somos por muitos cantos de sereia. O tempo cobra-nos decisão imediata, não nos deixa espaço para pensar. É ir por aqui ou por ali. Entregar-se ao prazer do momento ou a ele resistir. Em tom de blague, Millôr nos aconselha a não fugir da tentação, porque ela pode não voltar mais. Tentando manter o humor, dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Nem um corpo tentador. É pegar ou perder. Existem os que se jogam de cabeça na aventura do prazer. Preferem o doce agora, não querem o risco de deixá-lo para amanhã. Mordem a vida com todos os dentes. Querem o pássaro único na mão. De que valem dois voando? Na mitologia, assim era Epimeteu, nome que, em grego, significa "pós-pensador", ou seja, age primeiro e só depois vai pensar no que fez. Muitos são como Epimeteu, vivem o aqui e o agora com toda a intensidade, porque o amanhã não lhes pertence. Costuma-se dizer que são os aventureiros, os boêmios, os artistas, os apaixonados, os poetas, todos, enfim, que querem sugar da vida o néctar possível.

Existem aqueles que pensam de forma diametralmente oposta. Cuidadosos, olham a tentação com desconfiança, medem o tamanho do pecado,"vade retro, satanás". Avaliam as consequências e obedecem aos mandamentos. Não descuidam da poupança e da providencial aposentadoria. Assim era, na mitologia, Prometeu, nome que significa "pré-pensador", ou seja, aquele que pensa antes de agir. Prometeu e Pimeteu eram irmãos, mas em tudo, opostos.

Os seguidores de Prometeu apostam na segurança do amanhã, perdem por isso as oportunidades do hoje. Os seguidores de Epimeteu comem o doce, mas depois terão que explicar a boca lambuzada. Existe um adágio romano "virtus in medium est", que coloca a virtude no meio termo, daí se recomendar o equilíbrio na hora de decidir. Os excessos sempre nos punem. Eduardo Giannetti defende a posição mediana. Nem o "primata desmiolado e impulsivo", que se entrega irracionalmente ao delírio, nem o "autômato calculista", que foge sistematicamente do pudim. Depois, finaliza com síntese genial: "O macaco e o robô precisam um do outro".