Estamos vivendo experiências distintas nesta quarentena. Alguns trabalham em casa, muitos perderam o emprego, alguns têm que sair para nos garantir comida, saúde, limpeza, alguns têm filhos em casa, alguns nunca tinham convivido com as pessoas de casa, apenas moravam juntos.
Para muitos, administrar o tempo pode ser uma tarefa difícil, ainda mais quando pensamos que ao ficarmos em casa, somos invadidos pelas tarefas que antes dividíamos com o restaurante, com o café da manhã na padaria, com a escola dos filhos, com o passeio ao Shopping. Ou seja, com a quarentena, caiu sobre nós um acúmulo de tarefas e temos que ser equilibristas.
Pensar a respeito do momento em que vivemos, coloca-nos diante de muitas realidades novas, mas o que têm em comum com as antecedentes é o sentimento de medo, angústia e solidão que sempre sentimos em algum momento da vida. Estamos relutantes em digerir o "novo normal". Não queremos e fazemos força - no melhor cenário -, para estabelecer uma data para que tudo isso acabe. A nova rotina nos pegou de surpresa.
Com ela, estamos tendo a oportunidade de revisitarmos modelos familiares à que sempre fomos chamados a viver, mas que devido à correria do dia a dia, estávamos esquecidos. Partilhar afazeres, reinventar opções de tempo e espaço, dividir tarefas, pensar no outro, repensar o coletivo estabelecem dentro de nós novidades que modificam a ideia de rotina que mantivemos até aqui. Essa talvez seja a maneira de vivermos o novo "normal": termos que nos reinventar todos os dias.
Mudamos rotinas nunca pensadas antes para cuidar da saúde. Passamos a cuidar melhor de nossa alimentação, impactados pelo momento em que vivemos. Passamos a consumir também dos pequenos produtores, dialogamos com aqueles parentes dos quais estávamos distantes, administramos melhor o tempo, olhamos nossos espaços internos e externos. Fazemos compras pelo WhatsApp, esperamos as fotos, finalizamos as compras. Com a abertura das lojas em tempo curto, teremos que aprender a reorganizar nossas necessidades e nosso tempo.
Essa é a nova realidade que precisamos enfrentar. Diante do medo, da angústia, da solidão que sentimos provocados pelas incertezas a que estamos expostos, esses ganhos diários de adaptação deveriam vir para ficar. Não adianta pensarmos em mudanças grandes. É mais adequado pensar que as "pequenas conquistas diárias" minimizam nossa angústia, nossos medos e nosso sentimento de solidão.
Falamos de "pequenas conquistas", mas se pensarmos em nossos desejos, inconscientes que são, em algum momento alimentados pelo desejo do "grande", concluiremos que qualquer conquista é grande, porque ela muda algo dentro de nós. Somos os equilibristas do tempo. Em tempo: este texto foi escrito ao som da música: La Solitudine - Renato Russo