Brasília - A nomeação do deputado Fábio Faria (PSD-RN) para o Ministério das Comunicações, recriado sob medida para o parlamentar, foi lida por aliados do presidente e por parlamentares como um gesto de Jair Bolsonaro para reorganizar sua política de comunicação, diminuir a influência de militares na área e acenar para setores do Legislativo.
Num primeiro momento, no entanto, o movimento não foi bem recebido por uma ala do chamado centrão. Integrantes de algumas das legendas que compõem o grupo, como PP, PL e Republicanos, relataram a pessoas próximas desconforto com o fato de o presidente ter dado um cargo no primeiro escalão do governo a um deputado do PSD.
Apesar de Bolsonaro e expoentes do PSD assegurarem que Faria foi indicação pessoal do presidente, e não partidária, dirigentes de partidos do centrão avaliam que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, estava ciente da movimentação e foi contemplado com a nomeação do deputado. Kassab foi ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações no governo Temer e mantém interesses no setor.
Com o movimento, Bolsonaro ainda tirou a Secretaria de Comunicação do guarda-chuva dos militares - a Secom era subordinada à Secretaria de Governo, comandada pelo general Luiz Eduardo Ramos. A secretaria, comandada por Fabio Wajngarten, foi incorporada ao Ministério das Comunicações. Wajngarten foi nomeado secretário-executivo, por ora.
Pessoas próximas ao secretário avaliam que ele estava perdendo gerência sobre sua área para os fardados, que queriam imprimir ritmo e políticas próprias para a comunicação. Além de tirar oficialmente a estrutura da Secom dos militares, outra mudança deve representar a perda de poder dos integrantes das Forças Armadas na área. A expectativa é que o presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o general Luiz Carlos Pereira Gomes, seja substituído.
Fábio Faria também deverá trocar o presidente dos Correios, o general Floriano Peixoto Vieira Neto. Segundo caciques do centrão, o desconforto com a escolha de Faria não resultará em abalo forte com o governo - até porque eles também foram contemplados com cargos - e sobretudo pelo perfil agregador de Fábio Faria.