10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O acerto de Lula sobre o Manifesto Juntos

Alexandre Gasparotti Nunes - Secretário de Formação Política do Partido dos Trabalhadores na Macrorregional de Bauru e Cláudio Lago, presidente do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores de Bauru
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Recentemente, foi repercutido nos veículos da imprensa nacional o Manifesto Estamos Juntos, que reuniu assinaturas de representantes da sociedade civil de diferentes posições ideológicas. O manifesto é vago politicamente e não apresenta repúdio explícito contra as ameaças de implantação de uma ditadura no Brasil. O presidente Lula, em reunião da diretoria executiva nacional do PT, observou que o manifesto não cita os direitos que foram retirados da classe trabalhadora brasileira desde o golpe judicial-midiático-parlamentar contra a presidenta Dilma em 2016. Vários daqueles que assinaram o manifesto foram personagens ativos deste golpe que teve influência inequívoca no crescimento do sentimento antidemocrático que impulsionou Bolsonaro à vitória nas eleições de 2018.

Desde a vitória eleitoral de Dilma em 2014 uma aliança de forças conservadoras se aglutinou em torno da Operação Lava Jato para levar adiante um terceiro turno onde valeu tudo para impedir não apenas o término de mais um ciclo de governo petista como também a provável vitória eleitoral de Lula em 2018. Enquanto a maior parte da mídia brasileira endeusava os métodos de Sérgio Moro e dos procuradores da Lava Jato similares aos da Operação Mãos Limpas da Itália (vazamento para a mídia de trechos de delações premiadas, por exemplo), todos os críticos que apontavam os danos da Mãos Limpas à democracia italiana eram ignorados. A história está mostrando que tinham razão os críticos da Lava Jato que temiam a repetição, aqui no Brasil, dos mesmos resultados da Mãos Limpas na Itália: a criminalização da política, crescimento do sentimento antidemocrático na sociedade, a ascensão ao poder de políticos populistas de extrema direita.

Lula não está duvidando das boas intenções de uma parte dos signatários e nem fazendo defesa do sectarismo quando expressa sua discordância do manifesto Estamos Juntos. Ele pede aos dirigentes do PT que não assinem às cegas qualquer manifesto pela formação de uma frente democrática. "Nós precisamos apoiar qualquer manifesto que for para resolver o problema do Brasil, não podemos ser levados pela euforia. Muita gente de bem assinou. E tem muita gente que é responsável pelo Bolsonaro. O PT tem que discutir com muita profundidade, para a gente não entrar numa coisa em que outra vez a elite sai por cima da carne seca, e o povo trabalhador não sai na fotografia".

Os cúmplices da ascensão de Bolsonaro que agora querem a união de todos contra as ameaças à democracia não são contra as medidas econômicas de Paulo Guedes. Guedes e alguns dos que assinaram o manifesto Estamos Juntos estão de acordo sobre privatizações, reforma previdenciária que restringe as aposentadorias e reduz os valores delas, cortes de verbas para a educação e a saúde, redução da carga tributária somente para os mais ricos. Só que agora a gestão de Bolsonaro frente à pandemia da Covid-19 constrange os signatários do Manifesto Juntos que lhe apoiaram contra Haddad no segundo turno das eleições de 2018, pois Bolsonaro não apenas sabota as decisões de governadores e prefeitos que protegeriam a saúde e a vida dos brasileiros, mas também usa os poderes de seu cargo para deixar os mais pobres sem condições financeiras mínimas de permanecer em isolamento social.

O PT não vê oposição entre o isolamento social e proteção da economia, dos empregos e das empresas. Um governo verdadeiramente preocupado com a vida e com a economia mobilizaria recursos do Estado para garantir renda mínima aos mais pobres, financiamento dos pequenos e micro empresários, ampliação de verbas para o SUS compra de equipamentos, testes e contratação de mais médicos. Todas essas medidas garantem a vida, os empregos e a sobrevivência das empresas, ao contrário do que dizem Bolsonaro e Guedes.

Portanto, Lula está correto quando adverte sobre iniciativas como o Manifesto Estamos Juntos: "Querem educar o Bolsonaro, mas não querem educar o Guedes. Tem pouca coisa do interesse da classe trabalhadora nesses manifestos".