08 de julho de 2026
Esportes

50 anos do Tri

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 5 min

Uma Seleção que encantou o mundo. Um esquadrão marcado na história. Os elogios nunca são exagerados para definir a campanha do Brasil na Copa do Mundo de 1970. Mais do que ter vencido a competição no México e conseguido erguer pela terceira vez a taça de uma Copa do Mundo de futebol, o grupo de craques conseguiu ficar marcado para sempre na história da bola como um dos melhores times de todos os tempos. A conquista completa 50 anos hoje.

Sob o comando do treinador Mário Jorge Lobo Zagallo, craques como Pelé, Carlos Alberto, Tostão, Gerson, Rivellino, Jairzinho, Clodoaldo, e de jovens como o goleiro Emerson Leão, que se juntou aos colegas de posição Félix (titular) e Ado, conseguiram no México vencer seis partidas em seis jogos.

O Brasil alcançou a posse definitiva da Jules Rimet, troféu que só seria entregue a quem vencesse pela primeira vez três edições da Copa, e ainda ensinou o mundo como jogar bonito, com velocidade, ocupação de espaços, transição defesa, meio e ataque, alternância de posicionamentos. Uma aula de como se jogar futebol até nos dias de hoje.

JAIRZINHO, o atacante

"Dentro da minha mente, a primeira coisa que me vem à cabeça é o trabalho extraordinário realizado por todo mundo, no qual pude contribuir para que o Brasil ficasse com a Taça Jules Rimet em definitivo. A comissão técnica era de altíssimo nível, com Zagallo, Coutinho, Parreira... Eram pessoas altamente qualificadas e preparadas. Eles montaram um cronograma de trabalho e, pela primeira vez, o Brasil teve um esquema de preparação com três meses de duração. Treinávamos seis horas por dia, sendo três pela manhã e três à tarde. Pela primeira vez a Seleção jogou com cinco camisas 10, todos jogadores de alto nível. O mundo todo aplaudiu a qualidade do futebol brasileiro, ofensivo e de muita técnica. Até hoje está escrito nos anais do futebol que o time de 70 foi a melhor seleção de todos os tempos. Zagallo montou uma Seleção que nunca mais ninguém vai conseguir fazer. Aquele título foi um feito maravilhoso do futebol brasileiro." PS: Em 1978, Jairzinho defendeu o Noroeste na disputa do Campeonato Brasileiro.

CLODOALDO, o volante 

"A memória mais querida que tenho daquela Copa é da convivência do grupo. Todos nós tínhamos um ambiente muito bom. Claro que a gente era adversários nos clubes aqui no Brasil, mas em prol da seleção brasileira conseguimos deixar de lado algumas diferenças e ter um clima bom, de amizade e companheirismo.

O grupo tinha várias figuras muito queridas. O Brito era o cara mais divertido. Sempre contava piadas e tirava sarro. Até hoje nós, jogadores, mantemos essa amizade. Recentemente a gente se encontrou em um evento na CBF para inaugurar a estátua do Pelé. Teve um almoço e nós ficamos conversando por muito tempo. De vez em quando até hoje troco mensagens com alguns. A tecnologia nos ajuda a continuarmos perto e sempre lembrando esse período incrível que foi a Copa de 1970."

RIVELLINO, o meia 

"Ao falar da Copa de 70 vem muita coisa na cabeça. Saímos do Brasil totalmente desacreditados por todo mundo. Tínhamos bons jogadores, mas naquela época era difícil ter informações dos adversários. Quando ganha, falam que o grupo é unido e mais aquela coisa toda... Essa coisa de grupo unido para mim é bobagem. Tem de ser unido dentro de campo. Eu corro por você hoje, mas amanhã eu não preciso sair para jantar contigo. O grupo tinha muito esse pensamento. Não importava se a gente se dava bem ou não fora de campo, o que importava era lá dentro. Havia problemas no elenco, claro, mas isso ficava fora. O gol do Carlos Alberto (na final, contra a Itália) é um exemplo dessa união em campo que eu digo. Falar em Copa do Mundo de 70 e na primeira coisa que vem na minha cabeça é aquele gol. Foi o time inteiro tocando a bola. Coisa linda."

GERSON, o meia

"A Seleção de 1970 foi pelo menos o melhor time do Brasil. Das campeãs, eu reputo duas: 1958 e 1970. A de 58 pela parte técnica e a de 70 pelo conjunto, pelo entrosamento. Essa Seleção de 70 foi montada basicamente em 1968, numa excursão que fizemos na Europa e depois pelas Américas. Isso nunca saiu da minha cabeça.

Para nós (jogadores), a troca de treinador não teve muita diferença, porque saiu um (João Saldanha) que foi vitorioso nas Eliminatórias e entrou outro também vitorioso (Zagallo), que vinha de um bicampeonato pelo Botafogo, em 1967 e 68 (Carioca). A única coisa que ele trocou foi o esquema. O Saldanha gostava de ponta na frente, que era o Edu, e o Zagallo gostava de ponta fechando o meio, terceiro homem (do meio de campo). Ele adaptou... ele tinha o Paulo César (Caju) e adaptou ali o Rivellino. A mudança foi essa. O que mais marcou para todo mundo foi justamente o entrosamento. A gente sabia o que outro iria fazer, o que gostaria de fazer, de antemão."

PELÉ,

o craque da camisa 10

Pelé sempre fala com carinho da Seleção de 70. Nada daquele Mundial sai de suas memórias. Os jogadores se respeitam até hoje e falam uns dos outros com orgulho e admiração. Basta perguntar de um para outro que os elogios chegarão naturalmente. É por muitos a melhor Seleção de todos os tempos, com futebol empolgante, craques em campo e vencedora. A Seleção do tri tinha Pelé, o melhor de todos, então com 29 anos. O fracasso do Brasil na Inglaterra em 1966 fez com ele reavaliasse sua despedida do time nacional como havia planejado. Disse que não queria mais. Mudou de ideia. Naquela época, achava que disputar três Copas do Mundo estaria de bom tamanho para um menino que saiu de Três Corações (MG) e começou a jogar em Bauru - onde defendeu o Bauru Atlético Clube (BAC) e rapidamente o Noroeste - para ganhar o mundo e a reverência de todos no esporte que seu pai também jogava.

Pelé estava feliz com sua vida e carreira. Tivesse jogado em melhores condições físicas e não se machucado no torneio mundial vencido pelos inventores do futebol, que também eram os anfitriões da festa, Pelé teria parado ali mesmo. Admitiu isso em seu Instagram, ao escrever após postar uma foto sua em branco e preto numa estação de trem inglesa em 1966. "Esse sou eu depois que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Eu jurei nunca mais jogar outra Copa. A lição é que você nunca deve ter medo de mudar de ideia."