A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda é considerada o maior canal de diálogo permanente da Prefeitura de Bauru com o setor econômico/empreendedor da cidade. Essa característica se acentuou ainda mais neste período de pandemia, quando o governo municipal teve que tomar decisões que afetam diretamente os mais variados segmentos do comércio, indústria e serviços. A secretária Aline Fogolin conta, nesta entrevista da semana ao JC, como a pasta tem atuado para manter acesa a chama do desenvolvimento, com doses extras de criatividade e muita transpiração e revela números como a explosão de MEIs na cidade em função da crise resultante da pandemia.
JC - Vocês já tem uma estimativa de quantos empregos foram perdidos ou quantas empresas acabaram fechando na pandemia?
Aline - O nosso acompanhamento é feito através do Censo Socioeconômico, uma proposta não apenas da secretaria, mas envolve outras pastas. Vamos fechar os primeiros números no final do mês. O que temos acompanhado são os dados nacionais, o Caged, e houve uma queda vertiginosa da geração de empregos, mas ainda não tem um dado concluído. O começo do ano estava com crescimento econômico, havia um aquecimento interessante. Com a chegada da pandemia, houve um aumento do número de Microempreendedores Individuais (MEI): a nossa média é de 150 novas MEIs por mês, no último mês foram 300. Já são mais de 31 mil no município. E teve a abertura de novas empresas, entre março e abril. Foram 150, mostrando que mesmo com a pandemia, há um giro econômico. Tanto que o Emprega Bauru tem cerca de 20 novas vagas de emprego a cada semana, ou seja, ainda há abertura de vagas.
JC - Como a Secretaria de Desenvolvimento tem atuado diante da pandemia e antes disso também?
Aline - A nossa função é fazer essa interlocução entre o setor produtivo e o governo, e melhoramos isso nos últimos anos, com muito mais transparência na concessão de áreas. Ainda falta melhorar a estrutura nos distritos industriais, é algo que depende de uma verba maior. A nossa secretaria é transversal, dependemos de outras secretarias, mas elas também precisam da gente. Atualizamos dados e legislações. A própria lei que disciplina os distritos industriais foi revisada, pois estava há 15 anos sem alteração. Outra coisa é a orientação ao empresário, ao microempreendedor e para aqueles que estão buscando um emprego, com cursos, qualificação. Atendemos três mil pessoas por mês, em média. Praticamente recriamos a secretaria. Ainda precisamos estruturar mais, ter em nossos quadros profissionais exclusivos, como um procurador, um engenheiro, um turismólogo. Até hoje, o governo nos apoiou dentro do que foi possível. Vim pelo desafio e não apenas pelo aspecto financeiro, procurando mudar as coisas.
JC - Em quais setores vocês perceberam que a crise afetou mais?
Aline - As atividades não essenciais foram muito afetadas. O comércio em geral e os que estão sofrendo diretamente as proibições do governo estadual. A área de eventos sofreu bastante e aqui somos um polo receptivo, com rede hoteleira, gastronomia, entretenimento. São segmentos bastante atingidos. Mas podem ajudar na retomada, pois no começo teremos menos viagens internacionais, então o potencial regional deve ser mais explorado, isso é algo que pretendemos trabalhar. Outo segmento atingido é o de estética e beleza, que está com restrição de horário para funcionar. Estamos oferecendo cursos a esses empreendedores sobre a gestão do negócio, negociação com fornecedor. É a área com mais MEIs em Bauru. O Banco do Povo já emprestou R$ 1,1 milhão durante a pandemia e estamos pedindo mais crédito, pois além do investimento do Estado, tem a contrapartida do município.
JC - A secretaria é a porta de entrada das empresas com o poder público. Houve uma pressão muito grande nesse período?
Aline - A gente tem um excelente relacionamento com o comércio e as lideranças empresariais. Com a pandemia, os trouxemos para o diálogo, mas não conseguimos atender todas as demandas. Fomos construindo propostas de como abrir, o que o Estado pode autorizar ou não. É muito genuíno e digno o pleito de todos eles, estão defendendo suas classes. Alguns excessos ocorreram, mas temos procurado manter o diálogo com todas as entidades que representam os segmentos.
JC - Como equilibrar empregos e saúde?
Aline - As empresas estão, na maioria dos casos, seguindo os protocolos. Ninguém quer por funcionários e clientes em risco. O Pacto Regional foi importante para isso. Outras regiões não fizeram o mesmo planejamento. Mesmo assim, não dá para agradar todo mundo. Se vai haver mais restrição ou menos, depende da área da saúde, que vem monitorando a situação do crescimento do novo coronavírus. Da parte da economia, claro que gostaríamos que o comércio estivesse aberto, as academias funcionando, os restaurantes, mas não é o município que dita as regras, e sim o Estado, além dos estudos que dão os direcionamentos.
JC - Muitos especialistas falam em pelo menos três anos para recuperar a economia. Esta é a percepção de vocês?
Aline - A projeção vai depender do quanto a pandemia ainda vai se arrastar. Se estratificar a economia, você acaba vendo que depende muito de cada segmento, só que isso impacta em tudo, porque os setores estão interligados. Esse ano é instável e que deve ter apenas os setores essenciais mantendo um giro, outros acabaram redescobrindo a atuação. Mas não vemos um cenário positivo antes de dois ou três anos. O governo federal identificou muitos problemas tardiamente: o auxílio emergencial demorou, o crédito para as empresas não vem funcionando. O município fica limitado muitas vezes. Eu e o prefeito já tivemos duros embates no que diz respeito ao Orçamento. Entendo perfeitamente o lado dele, mas luto por aquilo que defendo tecnicamente, com uma estrutura maior. Não adianta a secretaria por uma pasta embaixo do braço e 'vender' Bauru, se na hora que o empresário chegar aqui não tiver uma integração entre as secretarias, demorar para aprovar projetos ou para responder coisas simples. Vejo que o grande desafio é refazer o planejamento, integrar mais, dar mais visibilidade para que a Secretaria de Desenvolvimento Econômico possa atrair empresas, pois não existe dinheiro público, existe dinheiro do empreendedor, temos que estender um tapete vermelho a quem deseja investir.
JC - E na sua vida pessoal, o que mudou com o coronavírus?
Aline - Eu tenho um filho de cinco anos, mas não paramos de trabalhar. Seguimos conversando com os empresários, apoiando as decisões, a equipe da secretaria também continua trabalhando a distância. Todos estão dando o seu melhor, tanto os secretários como os servidores. Eu quero deixar a casa em ordem para quem for me suceder. O que precisamos é dar todo o suporte aos empresários, para que possam investir no município.