O hábito de sair de casa tornou-se raro para um grande número de pessoas em Bauru, que optaram por seguir à risca as recomendações de distanciamento social desde o início da pandemia do novo coronavírus no País. Sem passeios, sem visitas à casa de parentes e amigos, elas só deixam a segurança do lar em caso de extrema necessidade.
Neste domingo (28), este grupo - que permaneceu em isolamento mesmo durante o período de flexibilização das atividades comerciais - completa "100 dias de solidão". Nestas páginas, o Jornal da Cidade conta a história de alguns idosos e de famílias com crianças que precisaram reorganizar sua rotina e encontrar, dentro de casa, formas de manter o equilíbrio mental.
O psicólogo e doutor em Educação Luiz Carlos Canêo avalia os impactos deste afastamento forçado, considerando que o ser humano é, essencialmente, um ser social. Ele explica que a quarentena repercute de modo diferente para cada pessoa, levando-se em conta que a personalidade, o histórico de vida, o nível de resiliência e instrução de cada indivíduo também são diversos.
Aspectos como morar em uma casa espaçosa, com quintal e contato com a natureza, também podem tornar o isolamento menos desconfortável para uma parcela da população. "Seria irresponsabilidade fazer generalizações. No grupo de idosos, por exemplo, têm aqueles que moram com a família, aqueles que moram sozinhos, aqueles que moram em casa de repouso. Da mesma forma, as condições socioeconômicas variam muito", detalha.
CONFORTO
Como exemplo, ele cita os idosos que já tinham pouco contato com a família - pelo fato de os filhos morarem em outra cidade ou terem suas rotinas tomadas por outros compromissos. "Neste caso, a pandemia ratifica este distanciamento e a sensação de solidão tende a se agravar, gerando ansiedade, tristeza, medo e até depressão. Porém, dependendo da capacidade de resiliência, se tiver saúde e uma rede de apoio entre os vizinhos, este idoso consegue se virar bem", analisa o psicólogo.
Assim como um ambiente doméstico confortável, o acesso a tecnologias também é relevante para minimizar os prejuízos emocionais diante da quarentena. Isso porque, por meio de ferramentas como Skype e WhatsApp, tanto idosos quanto crianças podem manter contato constante com familiares e amigos que estão longe.
Para quem tem filhos pequenos, o confinamento exigido pela pandemia também trouxe desafios, porque intensificou o tempo de convivência de todos dentro de casa. Enquanto os pais começaram a trabalhar em home office, os filhos passaram a estudar por meio de plataformas online, fazendo com que toda a rotina doméstica precisasse ser redesenhada.
"Para segmentos sociais financeiramente privilegiados, este desafio tende a ser mais facilmente superado. Os atritos vão existir em qualquer realidade, mas o enfrentamento é diferente para uma família de muitas pessoas que vive em um ambiente pequeno", pontua Canêo.