08 de julho de 2026
Geral

Começa um dos semestres mais incertos da história

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

O País entrou no quarto mês de enfrentamento da pandemia e, no horizonte, muito pouco ainda se consegue vislumbrar. Cidadãos e os mais variados setores ingressaram, nesta última semana, em um dos semestres mais incertos da história, que traz um cenário de pouco espaço para planejamentos minimamente seguros.

Em entrevista concedida ao Podcast JC, o prefeito Clodoaldo Gazzetta chegou a comentar que Bauru seguiria nesse movimento de recuos e avanços, de "abre e fecha" das atividades econômicas, pelo menos até o final deste ano. Alguns segmentos apostam na descoberta de uma vacina para que a vida possa, finalmente, voltar ao normal. Porém, um especialista ouvido pelo JC, que pertence ao Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, adianta que o acesso universal à imunização provavelmente não ocorrerá antes de meados de 2021.

O JC ouviu especialistas em diversas áreas sobre os impactos da pandemia e sobre como a impossibilidade de programar o futuro irá afetar estes setores daqui em diante (leia mais abaixo). A reportagem conversou, também, com a professora Alessandra Lopes, do Departamento de Psicologia da Unesp, que analisou como os indivíduos são afetados pela inviabilidade de planejar as próprias vidas, em meio os imprevistos trazidos pela pandemia.

Segundo a professora, uma das grandes contribuições do pensamento científico consolidado ao longo da história é a importância da observação da regularidade dos eventos, permitindo que o ser humano pudesse melhor conhecer e estudar o mundo à sua volta, além de tirar conclusões e intervir sobre ele.

INSEGURANÇA

Com isso, o homem passou a ter a percepção de previsão e controle sobre o mundo e também sobre suas próprias vidas. Porém, o que acontece quando uma pandemia surge e substitui todas estas rotinas por incertezas? "Estudos têm atestado que, quanto maior a condição de imprevisibilidade, menor a capacidade humana de agir ativamente sobre o mundo. Mais passivos ficamos diante das situações que exigem refletir, ponderar e produzir mudanças que possam estabelecer novas rotinas. Falta-nos os sinais de segurança anteriormente aprendidos, as referências de ordem política, social e afetiva", descreve.

Ainda de acordo com ela, esta sensação de falta de controle tende a tornar os indivíduos mais limitados, dependentes, com repertórios restritos, que não permitem expandir os inúmeros potenciais para criação, ação e interação. Para lidar com este momento, ela recomenda que as pessoas procurem agir em grupo, mesmo a distância, como foco em produzir efeitos positivos não apenas para si, mas também para a coletividade.

"Se não posso trabalhar por restrições físicas e impostas, vale pensar em como mobilizar uma rede social de apoio, identificar as condições que levaram às mudanças, ponderar efeitos positivos e negativos, efeitos temporários e permanentes sobre a vida de outras pessoas e sobre minha vida. E pensar em como posso projetar ações que mais se aproximam daquelas que considero ideais", completa.

Diferentes áreas analisam momento de indefinição

A esperança de muitos para que a vida possa voltar à normalidade é a descoberta de uma vacina. Vários pesquisadores já trabalham com o objetivo de desenvolver o produto, contudo, o amplo acesso à imunização contra a Covid-19 não ocorrerá tão rapidamente, conforme analisa o médico infectologista Carlos Magno Fortaleza, membro do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo.

“Embora a gente tenha pesquisas andando muito rapidamente, é muito pouco provável que, antes de meados do ano que vem, tenhamos uma vacina comprovadamente eficaz, além de todo o parque de produção e logística para disponibilizá-la à população”, detalha ele, que também é professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

Simultaneamente, pesquisadores estudam formas de desenvolver medicamentos específicos para tratar a doença – que, provavelmente, terão alto custo de comercialização. Fortaleza reforça que, até o momento, nenhum remédio existente no mercado apresentou resultados robustos quanto à recuperação de pacientes infectados. “Um único estudo mostrou efetividade no uso de corticoides em pacientes graves. Mesmo assim, é um trabalho que precisa ser ampliado”, acrescenta.

A rede de saúde também tem se debruçado sobre a necessidade de retomada das cirurgias eletivas (não urgentes). Porém, como os hospitais de referência para a Covid-19 ainda seguem reservando grande parte de seus leitos para o tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus, a estratégia será estabelecer quais são os procedimentos cirúrgicos prioritários, que poderão ser realizados quando o atendimento a atingidos pela pandemia começar a ser desafogado.

“Muitos pacientes, como aqueles que têm certos cânceres e certas doenças cardíacas ou que demandam grandes cirurgias ortopédicas, não podem ficar meses esperando. Cada local deverá apresentar uma proposta de retomada de cirurgias muito cuidadosa, mas reversível, que pode ser suspensa, se os índices de infecção por Covid piorarem”, comenta.