08 de julho de 2026
Geral

'Interior fechou cedo demais'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Quase quatro meses depois do início da epidemia e do decreto que restringiu atividades econômicas, não só a cidade, mas todo o Interior ainda caminham para o pior: o pico da doença. A situação tem reforçado a constatação de que o Interior determinou o fechamento de vários segmentos cedo demais. É o que afirma o infectologista membro do Centro de Contingência do Coronavírus no Estado, Carlos Fortaleza. Ele defende que a medida no Interior deveria ter começado apenas na segunda quinzena de abril.

As melhores e últimas previsões apontam que o pico da Covid-19 em Bauru deve acontecer somente após a metade de agosto, quando a cidade atingir cerca de 5 mil casos notificados da doença. Depois deste período, é esperada a estabilização, mas a queda de casos deve ocorrer apenas em setembro (conforme texto da página ao lado).

Carlos diz que chegou a alertar várias autoridades para a situação e que o fechamento do Interior, em sua opinião, deveria ter ocorrido cerca de um mês após a Capital.

"Eu posso dizer, 'eu te disse', porque eu realmente alertei muita gente. Nosso erro foi fechar cedo demais o Interior. Fechamos em um momento em que só a Capital teria que fechar. Mas, havia justificativa para isso, afinal, todo mundo estava com medo", avalia. "O problema é que, agora, a população cansou e as cidades querem abrir com o quadro de evolução da doença piorando", opina Fortaleza.

Ele não aconselha flexibilizações que não se enquadrem no Plano São Paulo. "Estamos em uma situação em que não são recomendadas muitas liberalidades, embora alguns prefeitos que são candidatos à reeleição venham desconsiderando isso", observa.

'RETARDOU'

Por outro lado, Fortaleza ressalta o fato positivo de a curva ter sido achatada com a antecipação. Bauru, por exemplo, iniciou as restrições em 20 de março.

"Estávamos três semanas atrás de São Paulo, depois, dobramos o atraso em relação à Capital. Com o controle da doença por lá, a exportação de doentes para no Interior diminuiu. E fez com que a dinâmica da Covid ficasse mais voltada para transmissão local, que é algo que também foi retardado", explica.

O problema, contudo, é que o Interior não deve demorar a alcançar uma fase de crescimento exponencial da Covid-19. "A doença já atingiu em cheio Campinas e Ribeirão [Preto]. E não tem nenhuma cortina mágica, nada que impeça que a próxima fase sejamos nós [região de Bauru]. Torço para que não, mas acho que pode acontecer, sim", alerta o pesquisador.

'NA HORA CERTA'

Membro do Comitê Gestor de Enfrentamento à Covid-19 do município e diretor do Departamento de Saúde Coletiva, Luiz Cortez não nega que houve antecipação, mas apenas com relação à curva epidemiológica dos casos, como explica a seguir.

"Depois que está feito, é comum a crítica chegar, mas lá no início ninguém tinha essa percepção", afirma. "Pensando na curva epidemiológica fechamos antes, mas pensando na capacidade e ampliação do sistema de Saúde, fechamos na hora certa, porque, se a curva ocorresse antes, pegaria a cidade desprevenida, que foi o que aconteceu na Itália. No começo da epidemia, por exemplo, não só os respiradores, mas os EPIs [equipamentos de proteção] também estavam em falta".