08 de julho de 2026
Ser

Tantas emoções


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No dia 18 de março, quando muitos começavam o isolamento para se proteger da Covid-19, a primeira leva de perguntas da pesquisa "Emoções na quarentena" foi disparada pela empresa de estratégia criativa Wonderboom em parceria com os escritórios de pesquisa Huma e Maré. O questionário começou abordando a adaptação à nova rotina, que havia sido bruscamente alterada quando escolas fecharam, empresas introduziram o home office, espaços de lazer cancelaram suas agendas e restaurantes passaram a funcionar exclusivamente com delivery.

Foram 13 semanas de levantamento, que usou o método survey on-line, um questionário disparado via internet (o principal canal foi o WhatsApp) com perguntas fechadas e abertas. "Não fizemos esse estudo com objetivo comercial. A ideia é mostrar para as pessoas que elas não estão sozinhas, com sentimentos estranhos. Há um lugar-comum, apesar das particularidades de cada história", diz Camila Coelho, fundadora da Wonderboom. "As pessoas estavam se questionado muito. 'Será que só eu estou assim?' era uma pergunta frequente. Comprovamos que há novos sentimentos majoritários, comuns a todos, e que não eram fortes antes da quarentena", completa. O projeto acontece em um momento desconhecido até mesmo para os pesquisadores. "Vamos nos entendendo junto com os entrevistados. Vivemos a própria pesquisa, somos pesquisadores e pesquisados", brinca Camila.

Por semana, são cerca de 800 pessoas abrindo os detalhes do dia a dia durante a pandemia e virando estatística. Nas três primeiras, o estudo se debruçou sobre os sentimentos gerais. Em seguida, focou em tópicos como alimentação, libido, autocuidado, solidariedade, sono e consumo on-line. "Os principais sentimentos declarados até a quinta semana do levantamento foram ansiedade e preocupação. A partir da sexta semana, apareceram cansaço e tédio. Um fator interessante é que quanto menor o salário, maior são tais sensações", destaca ela, reforçando como a desigualdade social ficou escancarada durante a pandemia até mesmo na intimidade.

Assim como o humor ficou desajustado, a libido também está sofrendo. Metade da mostra afirmou que não está conseguindo manter relações sexuais e sentiu o desejo diminuir. Houve, no entanto, o crescimento da turma apelidada de beginner, que iniciou práticas novas no período. Muitos começaram a cozinhar, meditar, fazer sexo virtual e mandar nudes por causa do isolamento.

A diretora de TV Natalia Warth, 36 anos, nunca tinha sido muito de cozinhar. Mas em função do cuidado com a alimentação da filha Maria Rosa, de 3 anos, precisou se jogar nas panelas para criar menus para a pequena. Acabou virando um hobby divertido. Ela seleciona os ingredientes, define as receitas, prepara tudo cuidadosamente, monta uma série de marmitinhas coloridas e ainda fotografa para impressionar os amigos. "Virou um lugar de afeto muito grande. Tenho curtido. As aulas de pilates, as quais sempre faltava, também viraram outro grande prazer que levo a sério. É uma horinha que me sinto pertencendo a algum lugar do lado de fora de casa. Pratico na sala, com a Rosa brincando junto, trocando ideia com os outros alunos e ainda cuidando de qualquer dor nas costas que apareça", conta Natalia.