09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Não mudaremos. Não podemos!

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 2 min

"Use máscara e álcool gel. Juntos vamos vencer essa guerra" é o que dizem cartazes sobre a Covid. Desculpe a sinceridade e mau agouro, mas não vamos. A humanidade chegou até aqui travando guerras iguais ou piores que essa. No começo do século XX, a gripe espanhola foi muito mais violenta, infectou um quarto da população mundial e matou quase 2% da humanidade. Durou dois anos porque não havia ideia de lockdown ou isolamento, senão, seguindo o padrão atual, o surto teria durado pelo menos até a descoberta da penicilina, dez anos depois (embora viral, aquela gripe, como a Covid, traz de arrastão outras infecções bacterianas mais mortais).

Antes dela, foram incontáveis pestes, epidemias, pandemias e doenças que assolaram a humanidade. E chegamos até aqui. Na verdade, estamos apenas vivendo um novo desenho da natureza, uma nova brincadeira da evolução na qual a maioria passará incólume, milhões serão infectados e, nesse contexto, provavelmente alguns milhões haverão de morrer (inclusive eu ou você, caro leitor). Morrer faz parte do ciclo da vida!

É preciso entender que a humanidade não está em risco, pois a Covid não será a última fronteira entre a vida e a morte; trânsito, violência, guerras, saneamento precário, fome, catástrofes e tantas outras tragédias globais ceifam milhões de pessoas mundo afora e já não nos importávamos, porque aprendemos a viver com a dor. Triste, contudo, é ver as pessoas achando que o mundo não será mais igual. Por quê? Se chegamos até aqui com abraços e apertos de mão, com contatos humano e caloroso, se aprendemos a estreitar laços mesmo - senão principalmente - quando o sofrimento coletivo era ainda mais indizível em tantos eventos biológicos, quem nos dá o direito de dizer que "daqui para frente" o distanciamento será a regra?

Ora, não temos esse direito, muito menos o de achar que "vamos vencer essa guerra" sendo desumanos. Desde que passamos a entender a microbiologia, conseguimos exterminar uma única doença (a varíola), mas depois de quase um século de imunização global. A Aids, surgida no alvorecer da ciência do século XXI, está conosco há 30 anos e ainda não temos vacina! Quem, então, em sã consciência, acha que a Covid vai "ser vencida"?

Enquanto a imunização do rebanho não vier para deter esse vírus, ela seguirá infectando, pois a expressiva maioria dos infectados usava máscara e álcool e pegou a doença do mesmo jeito. Logo, ser ou não ser infectado depende mais do estado de saúde pessoal do que das artimanhas exigidas. Precisamos voltar a ser humanos o quanto antes. Lembrar como é bom rir num teatro, ir a um show, ver os filhos na escola e apertar uma mão, afastando essa ideia doentia que prega um mundo estéril, onde os humanos passarão a ser ligados por uma rede de internet, viverão confinados e serão felizes virtualmente. Como bem disse Charles Chaplin, "não sois máquina; homens é que sois".