09 de julho de 2026
Geral

Carpinteiro se reinventa em arte

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Imagina para quem precisou começar a trabalhar menino ainda, aos 13 anos, começou como office boy e agora, aos 44 anos de idade, ficar parado? Sem dinheiro no bolso e sem perspectiva na profissão? Poderia até embarcar em uma depressão, não é mesmo? Ainda mais quem vive com a mãe idosa e tem que ajudar no sustento da casa.

Não é o caso de Rogério Caldas, 44 anos, montador de móveis e que agora se descobriu um artesão de mão cheia, autodidata, um carpinteiro dos bons. Um paulistano que se define como bauruense, porque vive aqui desde os três anos de idade. De família humilde, já fez de tudo um pouco na vida, mecânico, pintor, mas é na marcenaria que se encontrou. E não se pergunte onde aprendeu a mexer com madeiras, virou um moveleiro, porque nem ele sabe. "Coisa de ver os outros fazerem, só isso. Ninguém nunca me ensinou não, fui aprendendo na raça", garante Rogério.

E há pelo menos duas décadas ele trabalhava em empresas de móveis. Como montador e vitrinista. E gosta muito do que faz. Tanto que nas horas vagas sempre que podia fazia bico nessa área, para ganhar um dinheiro extra. Precisa desmontar uma cama? Mudar um móvel de lugar? Ajeitar um rack ou uma cômoda? Consertar o pé quebrado de uma mesa? É com ele mesmo. "Montou meus móveis (5 móveis) com muito cuidado, todos estão impecáveis e sem nenhum arranhão", diz uma cliente em um desses sites de avaliação do profissional, no caso ele, Rogério. 

Faz no capricho. E é com esse mesmo capricho que ele está se reinventando. Sem deixar a busca por uma colocação no mercado de trabalho de lado, "não dá para dispensar se uma oferta vier, claro, mas está difícil para todo mundo", Rogério começou uma nova profissão: a de artesão de casinhas de bonecas de madeira. Tudo personalizado.

UM ACIDENTE PARA PIORAR

Como montador de uma grande loja, tradicional, de móveis finos, na cidade, havia sido dispensado pouquinho antes da pandemia. "A crise já vinha batendo na porta da empresa e me dispensaram. Não tive nem tempo de pensar no que fazer da vida, para onde me virar porque já veio a pandemia. Fiquei sem ter o que fazer. Os bicos caíram quase 90%", pontua. Bem-humorado, ele reconhece que boa parte dos prestadores de serviços está em dificuldades. Principalmente por ser uma atividade em que o profissional tem que entrar na casa alheia e em tempos de distanciamento social nada muito recomendável. "Mas eu fico de boa, encaro numa boa mesmo, até porque o mesmo receio que o cliente tem, eu também tenho", reconhece rindo. "Sejamos sinceros, posso trazer para minha casa, minha mãe é do grupo de risco, então o melhor é o isolamento com todos os cuidados possíveis. Máscara, álcool gel, trocar camisa, uniforme de trabalho, coisa que eu já fazia porque quem mexe com madeira pega muita poeira. Além disso, é hábito agora pisar em panos ensopados com cloro na hora de entrar em casa, o chão fica até manchado, mas é bem melhor isso né?", conjectura.

E se já estava difícil, para piorar, como usa motocicleta para se locomover, acabou sendo atropelado. "Fui fechado por um motorista, por pouco o pior não aconteceu. Só escoriações e o prejuízo da motocicleta que está no conserto até agora. Ou seja, perdi um pouco mais ainda", explica.

A AJUDA DA MÃE

Mas pensa que Rogério se deprimiu? Ficou se lamentando? Nada disso. Resolveu aceitar a sugestão da mãe e fazer casinha de madeira. Miniaturas para bonecas. A ideia foi dela que, aos 76 anos, reconhece o talento artístico do filho. "Não sou de ficar parado. Ia ficar doente se isso acontecesse. Ela me conhece. Deu a ideia e eu fui atrás do material para fazer a primeira.

A mãe, Maria Aparecida Conceição Caldas, também vendeu o primeiro exemplar. Mandou a foto para uma amiga de Araraquara e a cliente veio a Bauru buscar para a netinha. Adorou e falou que ele deveria fazer mais. E é o que ele está fazendo hoje em dia.

A CASINHA

Com toques de decorador e direito até a tapete ou cortina com estampa inspirada em quadro de Romero Brito, a casinha é o sonho de toda criança, com dois quartos, sala, cozinha, banheiro, lavanderia. Boa parte dos móveis também personalizados. "As vezes compro algumas coisas, mas prefiro fazer", diz ele, lembrando que a miniatura é para brincar com bonecas " a criança não entra dentro, é só pra ela brincar de boneca, mede 1,10 de altura e 0,90 de comprimento".  E Rogério capricha também na pintura e acabamento da madeira.

O material que ele usa também é importante. Fica leve, mas resistente. "A ideia é que dure toda a infância da criança, seja uma lembrança perene", diz ele. "Além do que como ela é praticamente 100% artesanal, não é linha de produção, fica algo diferenciado e exclusivo. Mesmo que o modelo seja igual, ninguém vai ter outra do mesmo jeito", acredita.

Os próximos passos são divulgar mais o seu trabalho "quem sabe eu só me dedique a isso. Eu gosto muito", confessa e até expandir a linha. Como gosta também bastante de animais, Rogério está se aventurando também em casinhas de pássaros. Dessas para a gente colocar no quintal e esperar os passarinhos virem beber água e bicar uma comidinha. Tudo no maior capricho. E o futuro? "Que a pandemia termine logo e eu tenha serviço, já basta".