09 de julho de 2026
Cultura

Luana canta Beth Carvalho

Adriana Del Ré
| Tempo de leitura: 3 min

Todo Carnaval tem seu fim, e a festa deste ano foi seguida de uma longa quarentena. Instaurou-se o paradoxo num curto espaço de tempo: da folia do povo nas ruas para o isolamento em casa. Depois de passar o Carnaval em Salvador, onde morou por dois meses, Luana Carvalho, já de volta ao Rio, se viu subitamente privada do contato humano. Isso a impediu também de dar andamento ao que seria seu segundo disco de inéditas, feito na multidão. As letras começaram a ser escritas na rua, em bares

Um contraponto a seu álbum de estreia, de 2017, "Sul", que, com "Branco", forma um disco duplo, e foi todo composto na mesma poltrona, dentro da mesma sala. A pandemia, então, levou a cantora e compositora a seguir outro caminho e a fazer seu disco do confinamento, "Baile de Máscara" (já disponível nas plataformas digitais), sobre Carnaval, quarentena, e que traz em sua essência sua mãe, Beth Carvalho, que morreu em 30 de abril do ano passado.

"Quando a gente entrou na quarentena, esse era o pensamento que vinha: 'Caramba, Carnaval-quarentena'. E aí, escrevendo as letras de algumas músicas que minha mãe cantava, fui identificando essa minha reflexão nessas canções que eu escolhi. Quando vi essas canções escritas num papel, percebi que eu tinha um disco. Quero fazer um disco sobre o Carnaval. E para fazer um disco sobre o Carnaval e a quarentena, vou trazer minha mãe", conta Luana, por telefone. "Na verdade, é uma homenagem a ela, mas é também, e sobretudo, essa reflexão sobre tudo."

Com a aproximação da data de um ano de morte da mãe - que durante anos enfrentou sérios problemas na coluna -, Luana pensava em homenageá-la, mas na forma de uma playlist afetiva, com lados A e B, reunindo tudo o que tivesse mais a ver com a história das duas.

"A gente tem um compromisso quando é filho de uma pessoa que deixa tanta gente saudosa: não só a família e os amigos, mas o País inteiro, muitos fãs e compositores que dependeram, de alguma maneira, do trabalho dela para ter uma projeção e que são gratos. Como filha, além de um legado que tenho que administrar na prática, existe uma memória que preciso sempre honrar", afirma ela. "Só que este primeiro ano de morte foi muito confuso para mim. Ainda há muito coisa para realizar dentro da minha cabeça, de que ela não está mais aqui. Então, quando vai embora, são muitos os sentimentos, porque tem o lado que a pessoa descansou de uma dor enorme e tem o lado que a pessoa não está mais aqui."

A sensação é de ter perdido a mãe ao longo dos anos, descreve a cantora. "Fui perdendo uma mãe que anda, depois perdi uma mãe que senta, depois perdi uma mãe que pode vir até mim, depois uma mãe que canta em pé, depois uma mãe que canta sentada, depois uma mãe que canta deitada. São muitas perdas. Então, quando parte de vez, até você entender a diferença entre cada uma dessas pequenas perdas e essa perda geral, acho que ainda tem muito tempo para eu registrar isso dentro do meu corpo. Existe uma presença importante em mim que é o que fica dela, mas eu estava em frangalhos."

Nesse mergulho na obra de Beth Carvalho, as letras de algumas canções do repertório da sambista despertaram a atenção de Luana, ao serem vistas sob o prisma dos dias de hoje. Há uma atualidade nelas que comoveu a cantora - e fazia sentido dentro de suas reflexões. Assim, no campo do tributo, a playlist com gravações de Beth deu lugar ao álbum Baile de Máscara, com regravações de seis músicas sobre o carnaval - mas "não necessariamente sambas de Carnaval" -, na voz de Luana Carvalho, com produção de Kassin, colaboração de VovôBebê no violão e na guitarra, e participação de músicos como Pretinho da Serrinha. Todos dedicados ao projeto a distância.