08 de julho de 2026
Ser

Influenciadores da terceira idade

Danilo Casaletti
| Tempo de leitura: 4 min

"Sabe por que avós e netos se dão tão bem? É porque têm um inimigo em comum: a mãe". É com essa frase espirituosa que Helena Wiechmann, 91 anos, dá o tom do canal de YouTube Avós da Razão (@avosdarazao), que tem mais de 37 mil inscritos e um perfil no Instagram com 57 mil seguidores. Ele faz parte de um mapa que a consultoria de marketing de influência Silver Makers acaba de divulgar com cerca de 300 influenciadores digitais acima dos 50 anos que cada vez mais vêm ganhando seguidores nas redes sociais e chamando a atenção de marcas para parcerias, palestras e, agora, lives.

O Avós da Razão se dedica a responder a perguntas dos internautas, sempre com bom humor e sem julgamentos - e sem medo de serem julgadas -, com temas que variam sobre como envelhecer a sexo na terceira idade. À frente do canal estão, além de Helena, Gilda Bandeira de Mello, de 78 anos, e Sonia Bonetti, de 83. Amigas há mais de 50 anos, elas resolveram, por incentivo da ex-nora de Gilda, levar para Internet, em 2018, os papos que tinham nos encontros - quase sempre realizados em botecos. "Ela nos ouvia e achou que a gente tinha um potencial, que nossa conversa tinha conteúdo", diz Sonia que, antes de se aposentar, era comerciante.

Helena foi tradutora e trabalhou com produção cinematográfica na Vera Cruz. Gilda foi figurinista do SBT por mais de duas décadas Todas dizem que já sabiam lidar com a tecnologia e que apenas se atualizam sobre as novas ferramentas e funcionalidades dos aplicativos.

"É uma reinvenção. Não deixa de ser um trabalho. A gente se dedica de verdade", diz Gilda. A dedicação já rendeu propagandas para marcas como Bradesco, Arezzo e Boticário. "São trabalhos interessantes, que nos remuneram justamente. As marcas estão se conscientizando sobre o que os velhos podem fazer por elas. Falta muito, mas já é um começo", afirma Sonia.

As três também têm como objetivo dar voz ao público mais maduro. "Chamamos os velhos para a briga! Temos que mostrar que somos muitos. Estamos colaborando com uma classe que estava esquecida", completa Sonia. Gilda só lamenta que parte desse público não tenha intimidade com a tecnologia. "Tem gente que diz que não gosta. Mas não tem jeito. É o caminho daqui para frente."

Outra influencer que aparece na lista é a gaúcha Ieda Wobeto (@iedawobetoreal), 73 anos, que ficou em terceiro lugar no Big Brother Brasil 2017 - a participante mais velha a entrar no programa até hoje. Com 245 mil seguidores, ela posta fotos ao lado de filhos, netos e do marido, Marcelo Gomes, 37 anos, além de fazer campanhas publicitárias, sobretudo de marcas de roupa. "Quero mostrar que a vida da mulher não acaba aos 50 anos ou quando ela se separa ou fica viúva. Se reinvente, tente ser feliz." Filha de agricultores, Ieda diz que aprendeu, ainda menina, a se vestir e a se pentear olhando as fotos de revistas. Eleita aos 18 anos a primeira Miss Canoas, cidade da grande Porto Alegre, hoje

é ela que, de certa forma, serve de modelo para seus seguidores ao postar seus looks sempre bem produzidos.

Ieda não vive apenas de seu trabalho como influenciadora. O retorno, garante, é servir de exemplo para as mulheres da sua idade. "Recebo mensagens pedindo conselhos, gente dizendo que gostaria de ser igual a mim. Isso me motiva, eu me renovo", diz Ieda que, com o tempo, aprendeu a lidar com os haters - seguidores mais agressivos - que chegam juntos com a fama, sobretudo para quem participou de um programa como o BBB. "Me chamavam de velha, diziam que eu estava com a data de validade vencida. Isso me ofendia. Hoje não ligo."

Mulheres como Helena, Sonia, Gilda e Ieda fazem parte da representação que domina o ranking elaborado pela Silver Makers, consultoria especializada no público sênior. De acordo com o levantamento, 84% dos perfis dos influenciadores da terceira idade são comandados por mulheres - a maioria toca em temas como valorização, estilo de vida, moda, desejos e saúde. Já os homens, preferem temas mais objetivos, como finanças, por exemplo. "As mulheres, quando chegam nessa idade, se libertam, ficam mais soltas. Já os homens, com a aposentadoria, se retraem", analisa Cléa Klouri, fundadora da Silver Makers, que faz a intermediação entre marcas e influenciadores da chamada economia prateada.