08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Esse é o meu país

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril, professor universitário, aposentado
| Tempo de leitura: 3 min

No mês de junho de 2009, o então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, durante uma viagem ao Casaquistão, preparando a bagagem para retornar ao Brasil, foi informado sobre acusações no senado brasileiro contra o ex-parlamentar José Sarney.

Teria esse político nomeado alguns parentes para cargos públicos, independente de concurso e sem que o ato de nomeação fosse publicado no diário oficial, fatos causadores da desconfiança de senadores que viram um apadrinhamento secreto encobrindo uma falcatrua.

Em defesa de José Sarney, que fora seu adversário político, no entanto, nas tantas voltas que o mundo dá, Lula virou seu amigo do peito gravando um breve pronunciamento para a televisão brasileira dizendo que a história daquele político não permitia ser tratado como uma pessoa comum.

Essa "pérola" foi pronunciada com aparência de pura sinceridade e revolta, muito embora Lula soubesse como todo brasileiro mais ou menos informado que o senador defendido não era flor que se cheirasse, sempre alvo de dúvidas sobre a formação de seu invejável patrimônio. Como Presidente da República biônico (não eleito pelo voto popular),

Sarney inventou um plano econômico mudando o nome de nossa moeda pensando em tirar o país do infortúnio, mas as sucessões de erros conduziram a frágil economia brasileira ao precipício.

Mesmo cônscio de que seu amigo político representava quase nada de bom ao país, Lula dividiu o Brasil em duas categorias de brasileiros: os comuns e os não comuns.

Sarney, na visão estrábica de Lula, era pessoa não comum, especial, portanto, mas bem antes desse hilário acontecimento o passado já havia noticiado a distinção de brasileiros em cômicos episódios. O presente mantém preservado o desvario.

O livro do antigo mestre em direito constitucional da USP Manoel Gonçalves Ferreira Filho, edição de 1973, discorrendo sobre o tema nacionalidade, ensina que o brasileiro naturalizado é um brasileiro de 2ª classe, justificando essa inferioridade encontrada na Constituição da República anterior, por negar-lhe diversos direitos (pág. 258), os quais distinguiram os brasileiros aqui nascidos.

Lula dividiu o brasileiro segundo a classe social em comuns e especiais, e o professor da USP vislumbrou essa divisão ditada no direito escrito em brasileiros de 1ª classe e brasileiros de 2ª classe.

O desembargador Eduardo Siqueira, do Tribunal de Justiça de S. Paulo, em maio passado, bateu boca com um guarda municipal de Santos por estar caminhando sem máscara, e para que não fosse esquecida sua prepotência, já manifestada naquela advertência, a mesma cena se repetiu no último dia 19, também em uma praia de Santos, com maior projeção, porque além de alardear publicamente seu autoritarismo, o desembargador destravou a língua em ofensas sobre quem estava trabalhando na fiscalização do cumprimento de normas de combate ao coronavírus.

No ridículo cenário gravado em imagens onde aparecem ofensas pessoais e menosprezo a ordem jurídica municipal do município de Santos vedando pessoas nas vias públicas e praias caminharem sem máscaras, o desembargador chamou o guarda municipal de analfabeto, em seguida, exaltou sua própria cultura ao pronunciar algumas palavras em francês, o que levou Ignácio de Loyola Brandão a mencionar em seu texto no "Estadão" de hoje, com destaque para: "A Aliança Francesa deve ter ficado estarrecida e preocupada: se as pessoas pensam que isso é francês, não é não. Também não é gíria, nem linguagem de malandro. Onde terá ele aprendido tal língua?"

O grotesco acontecimento no qual o desembargador ganhou destaque nacional por sua vulgar conduta, dividiu o brasileiro levando em conta o aspecto cultural em analfabetos e cultos. Pressionado pelas consequências do acontecimento, pediu desculpas ao ofendido.