09 de julho de 2026
Articulistas

A solidariedade não tem tempo

Claudia Zogheib
| Tempo de leitura: 2 min

Este ano estamos vivenciando múltiplas emoções e situações que acionam em cada um de nós sentimentos distintos, distantes daquilo que um dia pensamos viver. Com esta pandemia, revisitamos a ambivalência que a humanidade vive desde tempos remotos. Somos feitos de corpo, mente e espírito, mas enfrentamos paradigmas que tentam permanentemente dividir estas três instâncias, a ponto de somatizarmos em nosso próprio corpo as incoerências que não damos conta de digerir: nossa digestão mental sofre de congestão, e como consequência, faz padecer nosso corpo.

Momentos de pequenez e maldade contracenam com gestos magníficos e de extrema empatia: o prazer em fazer o mal, abre duelo com o prazer em fazer o bem. Estamos diante de duas conversas, elas se entrelaçam e nascem no mesmo lugar, e o sentido impresso em cada um de nós, padece ao nos ver tão imobilizados: o mal-estar contemporâneo se evidencia nos registros do corpo e da ação, enquanto assistimos a dimensão da linguagem ser empobrecida: a direção a seguir depende da escolha que fizermos. A duplicidade com que a proximidade aos fatos nos afeta, multiplica dentro de nós sentimentos de perplexidade. Não podemos continuar calados e paralisados diante de tantas situações adversas que muitos enfrentam no plano da existência.

Em "O Mal-Estar na Civilização", Freud diz que a mudança nas relações poderia contribuir para reduzir uma parte do mal-estar global. O fator de hostilidade entre os seres humanos que aparece na inclinação para a agressividade é considerado por ele como sendo o maior impedimento à civilização, e o problema das relações entre estes, no que diz respeito à questão ética, como um assunto que pode ser considerado o ponto mais doloroso de toda a civilização.

Ninguém deveria conseguir sobreviver deixando o outro de lado. Parece que para alguns, quando os fatos não estão no campo visual, a reação torna-se cada vez mais tênue. Uma anestesia coletiva se manifesta, esta que não deveria sobreviver em lugar nenhum.

Gerar qualquer atitude dentro de nós, requer que nos sensibilizemos ao que está ao nosso redor. Ninguém dito como "normal", deveria conseguir sobreviver vendo qualquer ser humano sentir fome, frio, medo, insegurança. Seria ingênuo de nossa parte não atualizarmos que estamos permanentemente diante das escolhas que fazemos frente as situações que vivenciamos. Não deveríamos conseguir sobreviver deixando o outro de lado. No confronto entre o bem e o mal, o ser humano deveria vencer.

Em tempo: este texto foi escrito ao som da música "Sonata al Chiaro di Luna", de Beethoven.

A autora é responsável pelas páginas Cinema e Arte no Divã, Auguri Humanamente. Psicóloga clínica, psicanalista, formada pela USC, especialista pela USP - Dpto. de Psicologia