Nos pés, um All Star. Na cabeça, a inspiração em Mia Couto, Marian Keyes e Luis Fernando Veríssimo. Este é o estilo da escritora paulistana Marcela Mattar Bazzo, de 34 anos, que vive em Bauru desde 2006. A quarentena rendeu a ela dois livros e 30 mil seguidores em sua página no Facebook. A "Cronicamente" reúne textos diários sobre as experiências cotidianas da autora. "A literatura transformou a minha vida", revela.
Formada em Cinema 3D e Animação, Marcela gosta mesmo é da boa e velha escrita. Feminista, ela não assina o sobrenome do marido, o médico ortopedista Alexandre de Paula Machado Bazzo, de 40, em suas obras, embora sinta por ele profunda admiração.
Mãe do pequeno Henrique de Paula Mattar Bazzo, de 9, a escritora também se diz apaixonada por animais. Tanto que o cão Juscelino e os gatos Jimmy Jones e Pimpim não saíram de perto dela no decorrer da entrevista.
Abaixo, Marcela fala sobre a sua vida pessoal e o quanto ela se mescla com a profissional. Confira alguns trechos da conversa.
Jornal da Cidade - A paixão pela escrita surgiu logo na sua infância?
Marcela Mattar Bazzo - Eu nasci em São Paulo com apenas seis meses e, por isso, passei por vários perrengues. Só enxergo com um olho e, há alguns anos, quase perdi a visão do outro. Enfim, sempre estudei em escola construtivista. O meu avô, Roberto Dupré Mattar, era jornalista e trabalhou em quase todos os jornais da Capital. O meu bisavô, Rubens Prestes Mattar, fundou o periódico Shopping News. O meu trisavô costumava colecionar livros e passou a paixão para todas as gerações da família. Logo, o meu gosto pela escrita começou bem cedo.
JC - Você chegou a estudar algo voltado à literatura?
Marcela - Na adolescência, eu pensei em fazer Jornalismo, mas decidi migrar para Rádio e TV lá no Centro Universitário Belas Artes. Porém, não me encontrei e acabei me formando em Cinema 3D e Animação pela Méliès Faculdade. Naquela época, conheci o meu atual marido, que é médico ortopedista e recebeu uma proposta de trabalho em Bauru. Em 2006, nos mudamos para cá.
JC - Você já trabalhou na sua área de formação?
Marcela - Em São Paulo, eu trabalhei em uma produtora chamada DGT Filmes, voltada para a produção de documentários. Quando cheguei a Bauru, também atuei na área, produzindo e apresentando o "VH com Você", um programa ligado à TV Com. Porém, decidi parar, porque tinha uma vida igual à da Capital no Interior.
JC - Aquele problema de saúde, que você comentou no início da nossa conversa, surgiu logo depois?
Marcela - Quando o meu filho tinha 2 anos, eu comecei a enxergar uma mancha preta e procurei um médico. Passei por seis cirurgias, mas elas não deram certo. Então, fui para Brasília, onde descobri que a minha retina ainda estava descolada. O problema começou em 2013 e só chegou ao fim em 2016. Neste período, a minha vida ficou parada.
JC - Então, você viveu uma espécie de quarentena?
Marcela - Sim, só que bem pior do que a de hoje. Pensei que não conseguiria ver o meu filho crescer.
JC - Quando surgiu a sua página no Facebook?
Marcela - Em 2017, eu publiquei um livro na Amazon, mas usei o pseudônimo Ella Wendel. Inspirada em uma jogada de tênis, batizei a obra de "Zigzira". Ela é voltada ao público pré-adolescente do sexo feminino. Pensei que não tivesse muito mérito e, por isso, não usei o meu nome verdadeiro. Depois, continuei escrevendo crônicas e, em novembro de 2019, criei a página "Cronicamente". No início, só postava os textos aos domingos.
JC - A quarentena fez com que angariasse ainda mais seguidores, afinal, as pessoas estão com mais tempo para ler?
Marcela - De 1 mil seguidores, a "Cronicamente" subiu para mais de 30 mil deles no decorrer da quarentena. Antes disso, eu tinha apostado que 2020 seria o meu ano: queria terminar o curso de Filosofia pelo Mackenzie, estudar escrita etc. Porém, veio a pandemia. Mesmo assim, decidi retomar a minha vida e, logo no início de março, fiz um desabafo na página. Como passei a abastecê-la todos os dias, houve bastante adesão.
JC - A página ajuda você a enfrentar o isolamento de forma mais leve?
Marcela - Sim, principalmente, por causa da interação com outras pessoas que passam pela mesma situação. Eu estou isolada desde março, afinal, o meu filho tem asma e um problema cardíaco. A escrita é a minha válvula de escape.
JC - Você também publicou um livro recentemente, correto?
Marcela - Exatamente. A obra se chama "Cronicamente", da Editora Patuá, em São Paulo. Embora tenha o mesmo nome da minha página, ela não abriga as crônicas publicadas na mesma. A maioria é inédita.
JC - O isolamento ajuda você a se concentrar melhor para escrever?
Marcela - Sim. O fato de eu não ter outro compromisso fora de casa me deixou mais introspectiva. Inclusive, escrevi outro livro neste período, que ainda não foi publicado. Talvez, a obra se chame "Era uma vez Virgínia". Por incrível que pareça, não é de crônicas, mas um romance.
JC - Quantas crônicas você já tem publicadas na sua página?
Marcela - Mais de 200, sendo que 143 saíram depois do início da quarentena.
JC - Você comentou que a literatura funciona como uma válvula de escape, mas também acredita no seu poder de transformação?
Marcela - Sim. Tanto que a literatura transformou a minha vida.
JC - Como fica a situação dos escritores em tempos de pandemia?
Marcela - Embora as pessoas estejam lendo mais por conta da quarentena, os livros são caros no Brasil e muita gente já começou a perder o emprego. Para piorar, o ministro Paulo Guedes quer taxar as publicações. Agora, nos esta recorrer às redes sociais.
JC - Tem algum hobby?
Marcela - Eu gosto de tocar culelê, fazer esculturas e correr.
JC - Por fim, já que você superou momentos tão difíceis, deixa qual dica para as pessoas conseguirem enfrentar o atual cenário?
Marcela - A minha dica é pensar que tudo passa. Nem que seja por cima de nós (risos).