Emagrecer, controlar o colesterol, melhorar a memória, diminuir o risco de doenças cardiovasculares e câncer. Parece lista de desejos de Ano-Novo, mas são algumas das funções atribuídas a "superalimentos" como frutas vermelhas, cacau, castanha-do-Pará, quinoa, goji berry e chia.
A moda é embalada pelo marketing dos produtos, que por sua vez se alimenta de resultados de pesquisas. Mas, apesar dos estudos, os superpoderes desses alimentos estão longe de ser unanimidade. "É mais criação do marketing do que da ciência", diz a nutricionista Manuela Dolinsky.
Para ela, o maior problema é a falta de evidências científicas. Muitos dos estudos são feitos em laboratório, com culturas de células. Também há pesquisas com animais, mas trabalhos em humanos são poucos e insuficientes. "Basta ter um artigo comprovando um efeito in vitro que o resultado já é extrapolado para qualquer situação, sem comprovação", diz a nutricionista Ana Luísa Faller, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Um exemplo é o açaí, fonte de antocianinas, pigmento avermelhado com ação antioxidante. Estudos com ratos já relacionaram o consumo da fruta com a prevenção de câncer, de danos cerebrais e com o controle do colesterol. "Mas os estudos envolvem simulações. Ainda não se sabe qual é o efeito real no nosso organismo, onde e como os compostos agem", diz Daniela Souza Ferreira, engenheira de alimentos da Unicamp.
ANTIOXIDANTES
Nem tudo é exagero nas propriedades dos "superalimentos". De fato, açaí e outras frutas vermelhas são boas fontes de compostos bioativos, substâncias com diversas funções, mas popularizadas pelo poder antioxidante.
O organismo humano produz radicais livres o tempo todo. Quando há um desequilíbrio entre a produção e a "captura" de radicais livres, os elétrons a mais podem afetar as células, causando envelhecimento mais rápido e desenvolvimento de câncer e de outras doenças crônicas, de acordo com Faller.
"O problema é que não conseguimos mensurar quanto antioxidante a pessoa precisa ingerir para se livrar dos riscos", afirma. Uma xícara de goji berry, por exemplo, seria pouco para conseguir o efeito proclamado pelos estudos, calcula o nutrólogo Durval Ribas Filho.
Também não se sabe até que ponto a forma de consumo interfere no efeito. No caso do açaí, a perda de nutrientes da fruta in natura para a versão em polpa congelada é muito grande, diz Dolinksy.