Não precisa ir muito longe para se deparar com a extrema pobreza. Uma das líderes do De Grão em Grão, em Bauru, Tatiana Calmon Karnaval, coleciona uma infinidade de histórias tocantes que acabaram agravadas pela pandemia. "Tem até avó servindo água quente com terra para matar a fome do neto, porque a mistura lembra leite com achocolatado", adianta. Formado há três anos, o grupo do qual a voluntária faz parte ajuda as famílias carentes das regiões do Piquetinho e Jardim Manchester.
Ainda segundo ela, o projeto também conta com a organização de Erika Branco, Priscila Lellis e Guilherme Rodrigues. Além da distribuição de mantimentos, o quarteto promovia uma festa anual entre os abrigos de crianças e adolescentes para reunir os irmãos até então separados. O evento de 2020 não ocorrerá devido à pandemia.
Falando nisso, o atual cenário fez com que a demanda do grupo aumentasse. "O Piquetinho, que abrange o Assentamento Primavera e o Fortunato Rocha Lima, possuía 50 barracos há um ano e meio. Agora, nós contabilizamos em torno de 300", constata.
Por isso, os organizadores da iniciativa só conseguem priorizar uma parte do local e do Jardim Manchester. Este último bairro, inclusive, é aquele que Tatiana classifica como um lugar de extrema pobreza.
De lá, saíram histórias como a da avó que serviu água fervida com terra ao neto por não ter outro alimento em casa. "A senhora não conteve a emoção quando recebeu uma cesta básica das nossas mãos e revelou o que havia feito. Aquilo embrulhou o meu estômago", complementa.
No mesmo bairro, de acordo com a voluntária, muitas famílias vivem em casas precárias construídas embaixo de árvores. "Elas não têm acesso a saneamento básico e água potável".
Além disso, Tatiana narra que alguns barracos apresentam bastante lixo por perto, porque os moradores tiram disso o seu sustento. "Eles aproveitam os restos de alimentos para comer e o material reciclável para vender", diz.
Há, ainda, quem considere um simples 'miojo' um verdadeiro banquete. "Dá para cozinhar sem gás, usando qualquer labareda. Os moradores de rua, por sua vez, fazem com água fria mesmo. Eles deixam de molho por uma ou duas horas antes de comer", descreve.
TIAS E AVÓS
Outro ponto que chamou a atenção de Tatiana diz respeito ao fato de existirem várias crianças sob os cuidados de tias e avós, uma vez que os pais, geralmente, estão mortos ou presos. "Como muitos se encaixam no grupo de risco para a Covid-19, nós fazemos de tudo para não levar o vírus até lá", comenta.
O De Grão em Grão aceita doações de cestas básicas, basta levar os mantimentos até a rua Cussy Júnior, 3-40, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h. O grupo também se oferece para buscar os donativos, mas é preciso acionar Tatiana pelo número (14) 99132-4759.
Quem quiser contribuir com dinheiro em espécie pode entrar em contato através do mesmo telefone. Já para saber um pouco mais sobre o trabalho dos voluntários, é necessário acessar @degraoemgraobauru (Facebook) ou @degraoemgrao (Instagram).
RECOMEÇO
Outra iniciativa que visa amenizar a pobreza foi idealizada por Carlos Eduardo Ignácio. No início do ano, ele sofreu um acidente de carro e precisou se aposentar antes da hora. "No voluntariado, eu encontrei uma maneira de recomeçar", observa.
O homem, então, criou o Ação de Fé, que arrecada alimentos, brinquedos, cobertores e colchões para as famílias carentes do Mary Dota e Parque Real. Para ajudar, basta entrar em contato através do telefone (14) 99751-9794.