09 de julho de 2026
Entrevista da semana

Uma obra de vida alicerçada na humildade

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Na construção civil, uma das primeiras e mais importantes etapas de qualquer edificação diz respeito ao alicerce. Na vida, também funciona assim. Alicerçado na humildade, o titular da Secretaria Municipal de Obras, Sidnei Rodrigues, de 48 anos, constrói a sua trajetória tijolo por tijolo. Tal característica ajudou o profissional, que só aprendeu a ler e escrever quando chegou à maioridade, a conquistar a liderança da pasta com o terceiro maior orçamento da Prefeitura de Bauru, além de enorme demanda.

Com um senso de humor único, uma transparência reconhecida por todos e sempre muito solícito à imprensa, o secretário é filho do motorista aposentado Aparecido Rodrigues, que, aos 68 anos, morreu há dois meses, e da dona de casa Antonia de Fátima Rodrigues, de 65.

Primogênito de seis irmãos, Sidnei se casou com a servidora pública Regiane de Fátima Silva Rodrigues, de 43 anos, com quem teve o industriário David Silva Rodrigues, de 26.

Com a lida na roça ainda na infância, o secretário aprendeu a respeitar todo e qualquer profissional. Confira alguns trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Como foi a sua infância?

Sidnei Rodrigues - Na realidade, a minha história é meio atípica. Eu nasci em Duartina e fui criado em um bairro rural chamado Lelei. Morei lá até os 17 anos. Aos 7, comecei a trabalhar na roça. Mexia com bicho-da-seda para ajudar a minha família. Só que o meu pai resolveu se mudar para a área urbana de Duartina. Quando completei a maioridade, nós viemos para Bauru. Nesta época, ainda não sabia ler e escrever.

JC - Você nunca havia passado por uma escola até os 18 anos?

Sidnei - Eu cheguei a frequentar. Por ser o filho mais velho, o meu pai me obrigava a estudar, mas preferi trabalhar. Logo, ele me tirou da escola.

JC - Você sofreu muito para se adaptar à vida em uma cidade grande?

Sidnei - Quando nós decidimos vir para a cidade, eu achei que não me adaptaria. Porém, comecei a trabalhar como faxineiro na Mondelez. Na época, a empresa se chamava Ki-Refresco. Decidi, também, voltar a estudar.

JC - Em qual momento surgiu o interesse pelo serviço público?

Sidnei - Logo que eu terminei o Ensino Médio, comecei a prestar concurso. Só que cresci na Mondelez. Entrei como faxineiro e, depois de 13 anos, saí como líder de produção. Em busca de estabilidade, pedi demissão para trabalhar na Prefeitura de Bauru como motorista. A minha primeira experiência junto ao serviço público se deu na Secretaria Municipal do Meio Ambiente [Semma]. Em apenas seis meses, assumi o cargo de chefe do Setor de Fiscalização da pasta.

JC - Como chegou à Obras?

Sidnei - Em seguida, eu virei diretor do Departamento de Fiscalização da Semma. Com oito anos de serviço público, o então prefeito Rodrigo Agostinho me chamou para liderar a Secretaria Municipal de Administrações Regionais [Sear]. No segundo mandato dele, assumi a Obras, onde permaneci por quatro anos.

JC - O Gazzetta também quis manter você em seu primeiro escalão...

Sidnei - Sim. Tanto que, logo que ele venceu a eleição, eu me tornei coordenador da Defesa Civil até ser convidado para liderar a Semma. Depois de um ano e meio, voltei a assumir a Obras.

JC - Você chegou a fazer algum curso de graduação neste meio tempo?

Sidnei - Como eu almejava crescer dentro da prefeitura, estudei Gestão Ambiental e fiz um curso técnico em Química. Não sou um "ecochato", viu? Só acredito que nós precisamos agir pensando no desenvolvimento da população.

JC - O seu pai faleceu há apenas dois meses. Logo, acompanhou toda a sua evolução. Ele chegou a dizer que se orgulhava de você?

Sidnei - Com certeza. Inclusive, eu me tornei uma referência para toda a minha família. Me lembro como se fosse hoje de um episódio muito chato. Aos 16 anos, me perguntaram quanto dava um mais um e não soube responder. A partir daí, resolvi investir na minha carreira.

JC - E a sua esposa? Onde você a conheceu?

Sidnei - Ela é minha prima de primeiro grau. Nós brincávamos juntos na infância.

JC - Você evoluiu muito rápido em quase todos os lugares onde trabalhou. Acredita que a sua sinceridade tenha favorecido neste sentido?

Sidnei - Eu acho que sim. A partir do momento em que você é sincero, não deixa brechas para as pessoas pensarem coisas diferentes de você.

JC - Enquanto titular da Obras, você é chefe de engenheiros e não fez o mesmo curso que eles. Como conseguiu o respeito deles?

Sidnei - Mostrando as minhas habilidades em gestão pública. Nós somos um grupo multidisciplinar e dependemos do trabalho de todo mundo para obter resultados, incluindo o da moça que faz o café, o da outra responsável pela limpeza etc. Precisamos respeitar cada profissional dentro da sua respectiva área.

JC - Você tem interesse em se candidatar?

Sidnei - Eu até tenho, mas fico com receio das pessoas que estão enfiadas na política. Estes grupos esquecem que existem outros cidadãos com visões diferentes. Eles também merecem respeito.

JC - Você já bateu de frente com algum prefeito?

Sidnei - Bastante. Com o Rodrigo, nem tanto. Ele, inclusive, se tornou um amigo. Porém, brigo direto com o Gazzetta, porque nós temos visões diferentes de gestão.

JC - Qual foi o maior desafio da sua carreira?

Sidnei - A Secretaria de Obras. Por não ter cursado Engenharia, eu precisava provar todos os dias que era bom.

JC - Existe algum episódio que mais tenha mexido com você no decorrer da sua carreira?

Sidnei - Eu chorei quando nós inauguramos o viaduto inacabado, porque apanhei demais durante a obra. Outro episódio diz respeito àquele em que eu, o Rodrigo Agostinho e o Etelvino Zacarias salvamos três pessoas, em 2016. Na época, dois carros caíram no Rio Batalha indo para Piratininga e a enchente tomou conta de tudo.

JC - Por fim, qual é o maior desafio da Obras?

Sidnei - Em termos administrativos, a nossa informática precisa passar por uma evolução grande. Além disso, os nossos arquitetos e engenheiros devem ser treinados para a gestão pública. Em relação à cidade em si, creio que as enchentes tragam o maior número de problemas.