As regras de distanciamento social foram impostas em 20 de março em Bauru e, dias depois, os primeiros casos de Covid-19 começavam a ser confirmados na cidade. Na época, quase nada se sabia sobre o novo coronavírus, que trouxe um grande desafio para as equipes de saúde.
Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais voltaram os olhos para a pouca experiência internacional adquirida, mas, sem um protocolo de atendimento estabelecido, ainda trabalhavam "no escuro" para socorrer os infectados dentro dos hospitais. Agora, passados cinco meses, a expertise acumulada por estas equipes elevou as chances de pacientes graves sobreviverem à doença, mesmo sem a existência de vacina ou antiviral próprio para tratar a enfermidade.
Hoje, a mortalidade de pessoas que precisam ser internadas em leito de terapia intensiva por Covid-19 é de 34%, segundo dados do painel UTIs Brasileiras, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) e do Epimed - uma ferramenta de análise de dados e desempenho hospitalar. No início da pandemia, o índice chegava a 50%.
De acordo com médicos que atuam em Bauru, ouvidos pelo Jornal da Cidade, a prática adquirida dentro dos hospitais e os estudos científicos desenvolvidos ao redor do mundo foram, aos poucos, sinalizando para as equipes quais medicamentos e procedimentos garantiam a melhor resposta às consequências trazidas pela doença.
"Inicialmente, imaginava-se que a Covid-19 poderia se comportar da mesma forma que outras infecções respiratórias graves, como a Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (Sara). Mas, com o passar do tempo, fomos vendo que alguns parâmetros para tratamento do paciente poderiam ser diferentes", relembra o coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Estadual de Bauru (HEB), o médico Lucas Marques da Costa Alves.
EXPERIÊNCIA NA PRÁTICA
Uma das mudanças importantes foi a redefinição sobre o momento mais adequado para intubar o paciente, procedimento que, antes, era feito de maneira mais precoce. "Acreditávamos que, com a ventilação mecânica, protegeríamos melhor o paciente. Mas, depois, fomos percebendo que, para um grupo de doentes, era possível tolerar que permanecesse com uma saturação mais baixa, porque, dias depois, apresentava melhora", comenta.
Diversas medicações também foram testadas, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, que não demonstraram, em vários estudos científicos, qualquer alteração no desfecho de mortalidade - e, por isso, acabaram tendo uso descartado dentro dos hospitais. Já o corticoide dexametasona, de uso inicialmente controverso, foi incluído como medicamento de rotina para conter a inflamação de órgãos, como o pulmão, de pacientes que apresentam quadros mais graves.
Conforme pontua o médico pneumologista e intensivista José Eduardo Bergame Antunes, a rápida adaptação, em um intervalo de apenas cinco meses, foi possível porque o Brasil já vinha observando a experiência de países atingidos antes pela pandemia, apesar do viés político que acabou interferindo nas tomadas de decisão que deveriam obedecer exclusivamente critérios de saúde.
"Aprendemos com os países da Europa, inclusive com as experiências ruins que eles tiveram. Com a velocidade de transmissão de informações que temos hoje, conseguimos dar uma resposta mais rápida, o que foi importante para reduzir a mortalidade dos infectados", afirma.
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