19 de abril de 2026
Wagner Teodoro

Tempo e qualidade


| Tempo de leitura: 3 min

Depois de causar apreensão em parte da torcida pela pouca atividade em meio à pandemia de coronavírus, a diretoria do Noroeste agiu e foi certeira em seus movimentos. Definiu o retorno do técnico Luiz Carlos Martins e de 90% do elenco que disputava a Série A3 até a paralisação. Os nomes serão anunciados nesta segunda-feira (17), dia no qual o clube vai acertar um mês devido de salários para todos os atletas. Certos e confirmados já estão os meio-campistas Richarlyson e França.

O Noroeste ainda vai em busca de três reforços no mercado, todos de fora de São Paulo, já que existe a proibição da Federação Paulista de Futebol de jogadores trocarem de clube dentro do Estado durante o Campeonato Paulista. A princípio, serão dois atacantes e um zagueiro. O gerente de futebol Deda e Martins se encarregam de encontrar os nomes. O Norusca também monitora a situação do lateral-esquerdo Renan, no Atlético Cajazeiras, da Paraíba, que pode retornar ao Alfredão.

Com a confirmação da comissão técnica e de praticamente todo o elenco, o Noroeste terá continuidade do que vinha sendo feito de maneira primorosa em campo, com liderança disparada e a classificação antecipada à próxima fase. Mais que isso, cria a expectativa de que o recomeço seja menos traumático, de que o conjunto volte naturalmente, mesmo com cinco meses de parada. As poucas alterações devem proporcionar ao Alvirrubro reengrenar em mais rápido do que outras equipes que mudaram muito seu elenco e vão precisar de período maior para o ajuste.

E o Noroeste tem algo que nem todos possuem na reta final da Série A3: tempo. O time volta classificado e com uma gordura na liderança. Isso significa que terá quatro rodadas até o término da primeira fase para uma intertemporada. Buscar a melhor condição física, treinar e deixar o time azeitado para iniciar a fase decisiva. Poucos adversários vivem situação próxima disso. Para a maioria, serão quatro partidas para decidir o destino.

Por que não?

Por que quase não temos jogos no Brasil com a ousadia, com a ofensividade que acompanhamos na Liga dos Campeões? E, claro, eu falo de atitude, visto que a qualidade dos elencos e o tamanho dos orçamentos são muito diferentes. Porque a questão fundamental, para mim, é postura. É possível jogar para frente, buscar o gol o tempo todo com um elenco limitado também. Até porque o futebol no Brasil anda bem nivelado… por baixo. E é possível ser ofensivo, mesmo com jogadores medianos. O problema é mais de proposta. O Bayern foi implacável. Fez quatro e continuou letal. Fez seis e seguiu insaciável. Fez oito. O Barcelona vive um fim de ciclo e também se perdeu completamente, facilitando o trabalho dos alemães. Mas o time bávaro não parou. Quantas equipes no Brasil seguiriam agredindo sem misericórdia desta forma?

Pouquíssimas.

Com raríssimas exceções, aqui impera o fazer 1 a 0 e se resguardar. Vemos bons elencos para os padrões nacionais que não se tornam times letais, exemplos do São Paulo e do Palmeiras. Coincidência ou não, as duas equipes mais agressivas, que jogavam incessantemente em busca do gol, para amassar o adversário, eram treinados por estrangeiros: o Flamengo de Jorge Jesus e o Santos de Jorge Sampaoli. O argentino já ameaça criar uma nova "máquina mortífera", agora no Atlético-MG.

Na reta final da Champions, mesmo os clubes menores, não se encolhem ou jogam por uma bola. Praticam um futebol corajoso. Sim, o fator mata-mata, jogo decisivo, contribui. Mas a Atalanta só chegou longe porque é um time absurdamente ofensivo, que golpeia seus adversários. Foi o melhor ataque do Campeonato Italiano, que é disputado em pontos corridos. O Red Bull Leipzig joga de maneira organizada, com troca de passes, sempre buscando avançar. E ainda sobra espaço para surpresas, como o Lyon eliminando o rico Manchester City, de Pep Guardiola. O resultado de tudo isso é sempre emoção. Enquanto aqui abundam jogos chatos. Repito, mesmo com menos qualidade é possível ter coragem, agredir, ter intensidade coletiva e atormentar seu adversário. Mas é preciso sair da prisão do medo de perder. Perder jogos e o emprego. Só que no fim quem perde é o futebol brasileiro.