"Para o bem dos pobres e moradores de rua", esta seria a complementação que deixaria o título acima muito longo. Talvez alguns leitores se espantem e achem mesmo que, neste momento em que tanto se fala e quando existe uma preocupação real, obsessiva com o novo coronavírus, eu venha a tratar e comentar sobre este assunto aparentemente banal como o de uma geladeira. Achem mesmo que eu estou na contramão. E realmente estou; no entanto, convirão entre si que o assunto apresenta um ponto positivo neste momento de preocupação e isolamento; o de ser diferente, o de desanuviar um pouco a tensão pela qual todos nós, indistintamente, passamos. Também poderá servir de inspiração e sugestão a outros benfeitores. Refiro-me àquela geladeira comum como a de qualquer cozinha, da minha, a sua e dele que por um considerável tempo existiu na calçada da rua Gerson França, n. 3-49, defronte a um estabelecimento comercial, fato naturalmente inspirado por casos congêneres que podem ter ocorrido em algumas capitais ou outras grandes cidades, mas que principal e inegavelmente foi levado pelo espírito humanitário e altruísta do empresário. A geladeira que, funcionando ininterruptamente por um considerável tempo, tinha escrita em sua porta a mensagem "Ponha e leve". Frequentemente segui o imperativo da ordem levando e colocando em seu interior recipientes com sobras de comida que naturalmente ocorrem em minha e sua casa, prezado leitor.
Pois é sabido que somos considerados um povo que desperdiça muito alimento enquanto que milhares de seres humanos passam fome. Em contrapartida, muitos a ela se dirigiam, pegavam o deixado e levavam para matar a fome em casa ou na rua. Sempre limpíssima, contendo em seu interior as mais variadas sobras e espécies de alimentos, doces e pães devidamente acondicionados em recipientes. Ao lado da mesma havia um cabide onde muitos prendiam roupas e agasalhos e junto a seus pés um bem bolado comedouro e bebedouro para animais. Hoje, com tristeza, passo por aquele endereço e não a vejo mais. Porque implicaram com a mesma afirmando que tomava espaço na calçada, o que não é verdade, porque poucas pessoas passam pela mesma que é bem larga. Para "alguéns" faltaram sentimentos de caridade e amor conseguindo a sua remoção. Grande feito, digno de encômios, porque a calçada ficou livre para a passagem de poucas pessoas e esses "alguéns" devem estar felizes; e os necessitados frustrados, sem entenderem por que ela não está mais lá. E agora, quando há alguma sobra em casa, fato que procuramos evitar ao máximo, pode-se imaginar o seu destino. Justificável seria sua remoção se fosse criada uma outra forma de mitigar a fome daqueles que a ela se dirigiam com esse intuito. Mas nada foi criado para substitui-la e a fome continua. E pior ainda com o frio que vai chegar. No entanto, entendo que esse fato pode inspirar a Sebes em pensar e repensar sobre a viabilidade da instalação de geladeiras similares em certos pontos da cidade, de comum acordo com empresários, comerciantes e mesmo de famílias que se responsabilizariam pela cessão do espaço, limpeza e energia. A Sebes forneceria as geladeiras e aqueles se comprometeriam em sua manutenção. Pois, felizmente, há miríades de pessoas bondosas neste mundo.
Assim as sobras não iriam para o lixo e os moradores de rua e outras famílias pobres teriam a fome satisfeita.