10 de julho de 2026
Articulistas

O custo incalculável da negligência

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 2 min

Dia 4 último o mundo foi assustado pela enorme explosão no porto de Beirute, capital do Líbano, destruindo grande parte da cidade. Mais de 160 pessoas morreram e de cinco mil ficaram feridas. Centenas de famílias ficaram desalojadas. As imagens dos estragos são impressionantes. Só não se assemelham às de Hiroshima e Nagasaki, porque os danos de lá foram causados por desintegração atômica e em Beirute por impacto do deslocamento de ar. Mas calcula-se que seu poder correspondeu a 10% da bomba atômica.

A explosão se deu em um depósito de 2.570 toneladas de nitrato de amônio, armazenado no porto há seis anos, pela apreensão de uma carga ilegal. Mesmo tendo conhecimento de se tratar de material altamente explosivo, duas falhas funcionais ocorreram: a justiça foi solicitada a encontrar uma solução legal e passados os 6 anos nada tinha resolvido. A outra foi a administração do porto não garantir o isolamento e controle necessários, permitindo que um incêndio próximo provocasse o aquecimento e explosão do nitrato.

Um acidente é sempre precedido de uma sequencia de causas até aquela que o provocou, chamada de causa imediata. No caso foi o incêndio próximo ao depósito de nitrato de amônio. Entre as causas anteriores estão as falhas humanas. Mesmo que venha a se confirmar a hipótese de atentado essas falhas existiram e o atentado apenas passaria a ser a causa imediata. Foi por isso que o governo libanês mandou prender 18 autoridades portuárias, para responsabiliza-las, alegando negligência.

O governador de Beirute estimou um custo de 5 bilhões de dólares, que apesar de ser grande, deve estar muito longe do custo real, que é incalculável. Certamente foi pensando em valor da reconstrução, mas nessas catástrofes há muitos custos invisíveis, além dos custos materiais, financeiros e humanos. Neste caso ainda conta o custo do sofrimento físico e emocional, agravado com a pandemia do Covid-19. Muito tempo será necessário para o retorno ao normal, como aconteceu no Japão.

A negligência é uma falha humana muito encontrada entre os agentes públicos em toda a escala hierárquica, do mais humilde servidor ao chefe máximo. Falhas semelhantes às do caso de Beirute, envolvendo os servidores das repartições públicas e os da justiça, são encontradiças aqui no Brasil, causando incalculável prejuízo à sociedade. Não é preciso ir longe para constatá-las, basta verificar o atraso na estação de tratamento de esgoto de Bauru e a situação do patrimônio da Rede Ferroviária Federal, totalmente abandonado - a grande oficina da NOB depredada, centenas de vagões e locomotivas enferrujados e depenados, sendo que há servidores para cuidar do seu controle e dos processos jurídicos. Estenda isso para todo o Brasil, com obras interrompidas e abandonadas, de prefeituras ao governo federal e veja se esse custo para a sociedade seria calculável.

"Sem disciplina nos encargos que aceita e sem lealdade aos compromissos que assume, a pessoa será sempre um obreiro de êxito improvável e de eficiência impossível". (Emmanuel).

 O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru