10 de julho de 2026
Articulistas

Verdades da ficção

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Poucos nessa vida desenterram fascinação por cemitérios. Estranho a vida visitar a morte. Curioso a morte governar vidas. O esclarecimento das velas. A saudade coberta de crisântemos e lírios. O silêncio dormido da infância e da velhice. A geometria dos jazigos. A insistência da cruz crucificada. A incompreensão das perdas prematuras e a compostura hirta, inconfessável das preces alimentam minha tumular admiração pelo lugar.

Um mato rasteiro invadia as sepulturas. Infiltrava-se apressado pelas fissuras dos mármores, deitando sua agressiva obstinação de vida ocupar heranças da morte. Um velho, cujas mãos denunciavam afoitezas, afivela seu olhar em mim. Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, acende um cigarro. Despacha a fumaça em baforadas lentas. De passos oblíquos, como martelo descompassado, inclina minha atenção para reunião de sacis perto do cruzeiro. Na agilidade satisfeita das travessuras, gorros vermelhos gargalham inquietações. No outro lado, uma procissão de choro convocador lamentava as vítimas da Iara. Um anão, forte, cabeleira rubra e pés inversos. Seus passos mentirosos cachimbam e engolem o álcool da garrafa morta que enchera a boca. Numa reação honesta que os tragos fortes dão, sorri zeloso para mim. Curupira.

Um clarão serpenteia o lago atrás do cemitério, afastando assassinos de matas. Boitatá. Casal de caiporas atravessa minha vista, invadindo folhas. Sinto uma terceira voz pastorear meu ouvido. Olho pro relógio, metáfora necrológica da vida. A tarde convoca a noite. Despeço-me do velho, abandonando a multidão. No portão, miserável de ferrugem, um negrinho de felicidade descalça, montado num cavalo baio, me ri um riso indolente. Era ele, o negrinho do pastoreio.

O Criador diz 'Eu vos trago a verdade'. O poeta, 'eu trago minha verdade.' Entre um e outro, faz feliz sentido verbos crer e criar derivarem de 'creare'. Somente cria quem crê, e quem crê criativamente cria, apesar das visitantes impossibilidades. Entre a verdade e a imaginação, entre o real e o ideal, o proibido, o fantasioso, é provável que crer nesse mundo, nessa vida, tenha-se convertido na tarefa mais difícil. A Arte, a Literatura criam e creem em ideias e estas são a vida e a saúde do pensamento.

Viva o folclore!

 O autor é professor do colégio Tesla, autor de antologias e artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa