09 de julho de 2026
Cultura

50 textos de Gabriel García Márquez

Sylvia Colombo
| Tempo de leitura: 3 min

Os textos jornalísticos de Gabriel García Márquez teriam espaço na "mídia mainstream" dos dias atuais? Pelos temas que ele aborda, sim. Gabo, como é conhecido, escreveu resenhas de cinema, cobriu cúpulas de presidentes, fez perfis de ditadores, relatou o desabastecimento em Caracas, a Revolução Cubana, a Revolução Sandinista e a violência do narcotráfico e das guerrilhas no país em que nasceu, a Colômbia.

Pelos formatos que ele usava, também. Embora, neste caso, pudesse irritar algum editor mais formal, que prefere o relato seco de um evento. Gabo gastava tempo nos detalhes que definiam um personagem - sua roupa, suas expressões, seu modo de falar.

E, não raramente, usava um recurso que não costuma funcionar bem no relato jornalístico por escrito, a ironia, fazendo o leitor rir de uma crônica que poderia ser chatérrima.

O modo de abordar os eventos talvez escapasse aos manuais contemporâneos de redação. Porém, nos dias atuais, marcados pela reinvenção e inovação do jornalismo, poderia levar a uma discussão sobre o motivo de não usar o legado do Gabo jornalista como inspiração.

Por exemplo, ao cobrir cúpulas presidenciais, chatas e arrastadas em geral, Gabo relatava como o então presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, havia se ausentado de uma das reuniões para comprar brinquedos para um neto.

Quando cobriu a inauguração da linha direta por telefone entre Bogotá e Medellín, pôs o foco em quem teria feito a barba, naquele dia, do então presidente colombiano Mariano Ospina Pérez, imaginando o que teria pensado o barbeiro ao ter "a faca afiada na garganta" do mandatário.

Já quando relatou a falta de água em Caracas, cidade onde viveu e trabalhou como jornalista, o fez com a grandiloquência da qual depois trataria as tragédias que caíram sobre a imaginária Macondo, onde se passa o seu romance mais célebre, "Cem Anos de Solidão". Porém, sem inventar uma vírgula.

Parte de sua longa produção para distintos jornais e revistas está na coletânea "O Escândalo do Século", lançada também no Brasil. É uma seleção de 50 reportagens, realizada pelo editor espanhol Cristóbal Pêra, com prólogo do jornalista americano Jon Lee Anderson, que foi amigo de Gabo.

"Gabo apreciava o jornalismo sério, e tinha reverência com relação aos jornalistas profissionais, o que não significa que não cometia alguns exageros, nem que fosse perfeito. Ele sabia disso e imprimia seu estilo. E também escrevia com o cuidado necessário para que suas reportagens fossem bem escritas para serem lidas como contos", diz o jornalista Jon Lee Anderson.

Ele acrescenta que o "Gabo jornalista" é uma categoria a ser analisada passo a passo, já que o escritor foi mudando ao longo de sua carreira. Da primeira fase, a chamada "costeira", quando viveu entre Cartagena e Barranquilla, cidades litorâneas da Colômbia, os textos são relatos jornalísticos com ambições literárias.

Já quando morou na Europa como correspondente, sobressaiu o Gabo excitado por presenciar momentos históricos, ao mesmo tempo em que afinava sua ironia. O Gabo da década de 1970, com as ditaduras latino-americanas no poder e sua aproximação a Fidel Castro, passou a ser um jornalista militante. "A queda de Salvador Allende, no Chile, marcou sua visão da profissão como uma cruzada contra o autoritarismo", diz Anderson.

Já nos anos 1980, Gabo amadureceu e passou a trabalhar por um jornalismo mais sério. "Prova disso é o livro 'Notícias de um Sequestro', em que tratou o tema com rigor e exaustão", diz Anderson. E outra, a criação da Fundação Gabo, antes chamada de Fundação para o Novo Jornalismo Ibero-Americano, e que completa agora 25 anos.

"Estamos fazendo o que Gabo faria num momento como este, de pandemia. Encontrar uma maneira para que o jornalismo seja atuante, inovador, essencial. Formando e treinando jornalistas", conta Jaime Abello Banfi, que dirige a fundação.