10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ó pátria esquecida e silenciada... Salve! Salve!

Nathália Burton - Prof. de língua portuguesa
| Tempo de leitura: 2 min

As margens plácidas, de acordo com a nossa canção de elogio à pátria, ouviram o brado retumbante de um povo heroico, descrevendo uma brasilidade marcada pela luta, manifestação e pelo direito à palavra. Porém, anos depois, em contexto bem diferente daquela que tentava idealizar o sentimento nacionalista-ufanista, a pandemia veio para ressignificar esse legado postulado pelo Hino Nacional, sendo que este não contava, em sua composição temática, com os medos atuais da sociedade. Haja vista o contexto atual, o da pandemia, é válido a reflexão do filósofo Bauman sobre a liquidez das relações sociais, o que nos traz a reflexão da efemeridade, das relações rasas. Diante de um vírus que mata mais de 1000 pessoas diariamente, percebemos que a liquidez não se dá somente nas relações ou na falta delas, mas na liquidez dos dias, na liquidez dos sentimentos e sobre estarmos presos dentro de casa e dentro de pensamentos; logo, o sentimento é de insuficiência. Onde foi parar o nosso brado?

Enquanto isso, o presidente do Brasil demonstra desdém sobre os acontecimentos atuais, manifestando-se de forma irresponsável, em auto e bom tom, em busca de uma "pseudo-resolução" dos problemas. Talvez, um minuto de silêncio no planalto não seja o suficiente para silenciamento de cada vítima. O que adianta um minuto de silêncio diante de uma barulhenta irresponsabilidade? Forma de ajuda? Seiscentos reais na conta bancária, com a perspectiva de que durará apenas alguns meses. Como desespero? O comércio reabre. Porém, sem vacina, sem respostas, sem saída.

Além disso, o trabalhador sofre no sofá de casa, pois não sabe o que fazer. A empresa em que trabalhava, se despede sem um "tchau" ou "obrigada", descartando-o feito água que passou da validade, tão simples como remover do grupo de "WhatsApp". Estamos, finalmente, encarando, de certo modo, a realidade que Adous Huxley ficcionalizou em "Admirável Mundo Novo": somos tratados feito máquinas e descartados feito objetos. Logo, passamos despercebidos na mesma sutileza em que escorre a água de nossas mãos e, assim, escorremos da sociedade, do emprego e, da vida: sem opções, sem dignidade e sem voz.

No entanto, a recomendação é distância, é força, esperança e, no final, uma música bonita no rádio que acalenta a todos; também é um minuto de silêncio no planalto que silencia o "e daí?" do presidente. Com isso, percebemos a liquidez da sociedade, do trabalhador descartado da empresa sem explicações, percebemos as novas ideias do pequeno empresário em frente ao sofá e tudo escorre como água nas mãos. A falsa esperança é de que essa água seja o que mata a sede do amanhã. Enquanto isso, silêncio; uma brasilidade sem brado, um povo silenciado e um presidente barulhento.