De repente, sentiu medo, medo de levantar-se e viver mais um dia, medo de colocar os pés no chão, de encarar as pessoas, de trocar cumprimentos, de ler notícias, de fazer compras.
Ela sentiu medo do vento, seria um furacão? Sentiu medo quando ouviu os pássaros cantando. Sentiu medo de receber uma ligação, uma mensagem, uma voz conhecida, medo de entregar-se àquele sentimento, medo de sonhar, medo de criar expectativas, medo de despencar dos seus ideais, medo de tudo não dar certo, medo de si mesma. Ela estava vazia, fraca, tinha medo de comer. O medo era uma muralha que a impedia de ser quem era. Estava com a mente amedrontada, sozinha, inquieta, cultivando o medo. E aquela dor de cabeça, que não passava? Os seus olhos estavam nublados, as lágrimas caiam como gotas de tristeza, mas até de chorar sentia medo. Lembrou-se do que ele lhe dissera, há semanas:
"É preciso vencer o medo, e só se vence o medo, acreditando no amor. Ouça! O escritor austríaco Stefan Zweig e a esposa, fugiram da Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra, vieram para o Brasil, ficaram encantados com estas terras, ele escreveu sobre o Brasil. Estavam felizes. Felizes? Tiveram medo, medo do nazismo dominar o mundo. Os dois suicidaram-se. Justo ele, que havia escrito este pensamento: 'O medo de um acontecimento é sempre mais insuportável que o próprio acontecimento.' Pois o nazismo foi derrotado. E os dois? Os dois foram vencidos pelo medo."
Vencidos pelo medo e a dor. Deixaram de lado a esperança. A esperança que nos indica um novo caminho, uma nova porta, uma saída. Pensando nisso, adormeceu um sono profundo.
Sonhou que, ao acordar, as pessoas estavam nas ruas com cartazes, agradecendo a Deus pelo fim da pandemia. Todos felizes, todos sorriam, todos vestidos de branco e abraçavam uns aos outros. Abraçavam e alguns choravam, emocionados. Os filhos, com suas mães idosas, de mãos dadas, olhavam para o céu, glorificavam, agradeciam. Todos eram um só, todos se uniram com o mesmo objetivo: agradecer.
O medo que ela tinha havia ido embora, sentia paz. Sentia uma vontade de sair na rua, de tomar banho no riacho, de gritar, gritar sua felicidade. Percebeu que era a esperança de um começo, era a luz desta esperança que afastava o medo. A esperança fazia com que as pessoas conseguissem enxergar o amor umas nas outras. Ah, o amor! E só ele podia mostrar que todos somos um. Sorriu um riso suave, enquanto caminhava, descalça. Queria sentir a terra, queria sentir o vento, queria sentir o que o medo lhe tirou.
Quando viu Jorge vindo em sua direção, sabia que havia chegado a hora, chegado a hora de deixar suas emoções fluírem. O olhou, por um instante... Até que, subitamente, acordou com o despertador. Com calma, observou tudo à sua volta, levantou-se e foi à janela olhar a rua, para ter certeza que foi um sonho. Sentiu paz, esqueceu da dor, esqueceu do medo e pensou:
"O amor, o amor nunca falha!"