09 de julho de 2026
Geral

Para ela, trocar pneu de caminhão é leve; pesado é lidar com preconceito

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 2 min

O cabelo loiro e os olhos azuis contrastam com a graxa que toma conta de boa parte do seu corpo. As mãos calejadas também denunciam que a borracheira Eloísa Aparecida Roque, de 46 anos, exerce tal função, em Bauru, há mais de duas décadas. Para ela, lidar com o preconceito por estar em um meio predominantemente masculino é mais pesado do que trocar o pneu de um caminhão, serviço que, aliás, executa com maestria.

Natural de Avaí, a profissional se considera bauruense de coração, pois foi na cidade que aprendeu o seu ofício. Tudo começou quando ela se casou com o comerciante Fábio Cabrera, dono de uma oficina na quadra 8 da rua Rafael Pereira Martini, no Jardim Redentor, em Bauru.

A dificuldade em encontrar mão de obra qualificada e a consequente ameaça do fim do negócio fizeram com que a mulher decidisse se tornar borracheira. "Eu não conseguiria outro emprego, porque estudei até o 8.º ano do Ensino Fundamental e só sabia lavar, passar, cozinhar etc", acrescenta.

A partir daí, Eloísa aprendeu o ofício sozinha. "Eu fui até a igreja e pedi a ajuda de Deus. Saí de lá com a força de Sanção", narra.

A mulher acredita que a lida na roça, ainda na infância, também tenha dado força a ela, principalmente, na hora de encarar o preconceito. "Eu passo por muita humilhação, porque faço um serviço sujo, pesado e mais comum aos homens", constata.

Porém, a borracheira usa a falta de aceitação para se fortalecer. "Certa vez, há 18 anos, eu trocava um pneu debaixo de chuva. Uma pessoa disse que não era borracheira, mas graxeira. Não me deixei abalar e, de lá para cá, passei a sentir orgulho do meu ofício", revela.

EMPODERADA

A atitude de Eloísa surtiu resultados. Hoje, ela toca a borracharia sozinha e o seu marido assumiu outro negócio. A mulher também coleciona clientes fiéis oriundos dos mais diversos bairros da cidade: Parque Bauru, Geisel, José Regino, Tangarás, Jardim Manchester, Vila Falcão, Jaraguá, Parque Paulista e Rosa Branca.

A borracheira atende, ainda, a pessoas de toda a região: Iacanga, Arealva, Bariri, Botucatu, Lençóis Paulista, Avaí, Pirajuí, Presidente Alves e Lins.

Em meio a tanto serviço, Eloísa chegou a se machucar. "A ferramenta falhou e o pneu desceu sobre a minha mão, provocando uma fratura em um dos dedos", relata.

Depois de se submeter a uma cirurgia, a profissional recebeu alta e voltou a trabalhar. "O segredo é manter o psicológico em dia para deixar o preconceito de lado. O pessoal acha que mulher precisa ficar em fogão e tanque ou, então, em serviço leve. Não funciona assim", argumenta.

Mãe da estudante de Administração Ana Carolina, de 19 anos, a profissional ama o que faz. "A borracharia me ensinou a ser humilde e, às vezes, ouvir mais do que falar", finaliza.