09 de julho de 2026
Nacional

A difícil rotina longe da turma da escola

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

Vontade de sair para passear, lágrimas ao ver vídeos dos amigos e saudade até de vestir o uniforme para ir para a escola fazem parte do relato das crianças e adolescentes que, em isolamento, estão impossibilitados de fazer, como antes, as atividades do dia a dia. Eles têm dado sinais de que estão saturados da situação e as famílias tentam se reinventar para superar os altos e baixos. Especialistas dizem que o sentimento é natural, mas que pais devem ficar atentos em casos de mudança de comportamento e de sintomas de depressão.

Laís sai de casa para ir ao dentista ou quando acompanha os pais ao supermercado. No restante do tempo, fica em casa. "No começo, fiquei muito feliz, porque era meu sonho estudar em casa, mas é horrível ficar diante da tela de um computador ouvindo a aula. Está muito difícil ficar na quarentena sem poder sair, abraçar os amigos, estudar na escola. Estou torcendo para que 'o corona' acabe logo, porque não aguento mais ficar isolada com os meus pais e não poder ir para os lugares em que eu ia", lamenta a estudante.

O pai da jovem, o jornalista Marcos de Oliveira, 60 anos, tem buscado apostar no diálogo para ajudá-la a enfrentar a nova situação. "Agora, está sendo mais complicado. Ela sempre teve dificuldade para acordar cedo e, às vezes, fica vendo a aula na cama, mas tem um desinteresse total pela matéria, por fazer a lição de casa. A gente tenta conversar, conscientizar, mas está mais desanimada."

A pandemia não só mudou a rotina como quebrou as expectativas da estudante Julia Nascimento Barussi, 17 anos, para este ano. Sofrer, em alguns momentos, foi inevitável. "Quando eu assistia a algum vídeo de amigo, sempre chorava de saudade pela expectativa que a gente tinha. É o nosso último ano na escola. Depois, cada um vai seguir o seu caminho, não sabemos quem vai mudar para outra cidade. Agora, depois de tantos meses em casa, a gente começa a ter uma aceitação melhor."

FAMÍLIA

Já a saudade da família vem sendo superada não só com alternativas online. "Tem a distância dos familiares, a gente sente falta da convivência com a família, de almoçar aos domingos. A minha avó mora perto e, às vezes, a gente combina, eu pego o binóculo e ela fica acendendo e apagando a luz da sacada. A gente vai se acostumando, mas tem momentos de estresse, de ansiedade, de chorar, de ficar brava."

Julia conta que, com ajuda da mãe, a comerciante Suellen Nascimento, 38 anos, tem se dedicado a outras atividades para passar o tempo dentro de casa. "Em algumas noites, a gente montava quebra-cabeça, pegava jogos de tabuleiro. Eu e minha mãe já testamos todo tipo de receita, fazemos exercícios e dança com vídeos no YouTube. Foi um aprendizado."

A pandemia também mudou a vida do estudante Alexandre Augusto Jatobá, de 16 anos. Por um lado, ele começou a adotar hábitos mais saudáveis, a correr antes da aula e a compartilhar nas redes sociais mensagens motivacionais que escreve.

Mas também há momentos difíceis. "A gente está vivendo um momento muito terrível, com muitas pessoas morrendo. Isso marcou tanto a minha vida, até choro quando penso nas vidas que se perderam. Acho que a pandemia tocou muitos corações e as pessoas estão dando mais valor à vida."