10 de julho de 2026
Articulistas

Maravilhosa simplicidade narrativa

Matheus Terra
| Tempo de leitura: 2 min

Foi num banco de concreto em frente à sua casa, na presença do sol escaldante das 3 horas da tarde, quando voltava do trabalho, que pude topar com um senhor grisalho beirando os seus 70 anos de idade. Advirto, antes de tudo, que é com uma certa religiosidade que tomo o dicionário para pesquisar este ou aquele termo que me surge na cabeça e sobre o qual não sei ainda o significado. Investigo e apuro se é com "x" ou com "ch" que se escreve tal palavra ou se "enjoo" tem ou não acento circunflexo a fim de aprofundar o conhecimento da língua portuguesa, sobre o qual, na grandeza e imensidão marítima das regras gramaticais e postulados linguísticos, sou umas simples fração de gota d'água.

Entretanto, é em momentos cotidianos como este que nos deparamos com pessoas capazes de acender em nós a chama de uma percepção notável, incomum, como se ela estivesse ali o tempo todo pronta para manifestar-se e ser decodificada, e sobre o qual descobrimos o inexplorado conhecimento que só pode ser acessado através de uma boa, velha e amigável conversação (é claro, respeitando as regras de distanciamento social).

Ao deparar a facilidade do senhor em puxar assunto com desconhecidos, parei e pus-me a conversar. Estava sem pressa e o tempo sempre esteve em meu favor, sobretudo em momentos de reflexão. Entre piadas e fatos cotidianos, afirmações religiosas e pessoas importante que deixaram saudades, pude perceber a sua facilidade em expressar-se e relatar sua história com palavras simples, despreocupadas, flexíveis. Uma facilidade narrativa que eu jamais tivera em minha vida. Sempre buscava entender e pôr em prática regras gramaticais e palavras sonoramente sedutoras. Reconheço: nunca cheguei a lugar algum.

O "bom" transformara-se em "bão", "melhor" tornou-se "mió" e a afirmação "nós fomos até Bauru" metamorfoseou-se admirável e impressionantemente em "nóis fumo inté Bauru", sem preocupação alguma de que a palavra "fumo" poderia se referir ao tabaco. A conversa seguiu divertida, agradável e lisonjeira como uma brincadeira de criança numa tarde de sol. Sua simplicidade oratória, sobretudo a deslumbrante competência narrativa que possui sobrepõe-se a quaisquer nuances discursivas de engravatados que buscam a harmonia narrativa perfeita.

A língua portuguesa mostrou-se uma vez mais que é viva, dinâmica, que regras podem ser dispensadas como se quisesse me demonstrar naquele momento, em todo o meu despreparo e incompreensão de um estudante na casa dos 20, que não é a complexidade da língua que a torna cativante, encantadora, mas a simplicidade de um locutor que se faz compreensível ao seu modo, descomplicado e entendível em sua capacidade narrativa com toda a inteligência de alguém que talvez sequer tenha pisado em uma universidade.

O autor é pederneirense e estudante de Jornalismo pela Unesp – Bauru.