Enquanto boa parte da população mundial se vê diante de inúmeras incertezas decorrentes da pandemia do novo coronavírus, algumas pessoas em situação de rua, em Bauru, nunca se sentiram tão seguras. Elas estão abrigadas no Serviço de Acolhimento Imediato aos Moradores de Rua, que foi lançado pela prefeitura em 22 de julho e funciona no Ginásio Darcy César Improta, entre a Unesp e o Hospital Estadual, no Núcleo Geisel. Com camas para casais e até espaço aos animais de estimação, o local visa recuperar a dignidade humana, muitas vezes, perdida em meio aos descaminhos dos entorpecentes.
Natural de Bauru, Janaína Aparecida Manso, de 42 anos, vive na rua há quase uma década. Usuária de álcool e drogas, ela perdeu a confiança da família, de quem já furtou objetos para sustentar o próprio vício.
No ano anterior, a mulher conheceu o seu atual companheiro, Éder de Souza, de 35, com quem consegue dividir a cama dentro do abrigo, algo impossível em outras instituições.
Para ela, a mais nova casa de passagem "caiu do céu". "A pandemia, portanto, nos trouxe segurança", relata.
A reportagem visitou o abrigo na última terça (8). O casal estava no local havia seis dias e, neste tempo, a mulher alega não ter mais usado drogas.
DROGAS AOS 8 ANOS
Aposentado por invalidez desde a década de 80, quando recebeu o diagnóstico de HIV, Antônio Hélio Clementoni nasceu em 1962, mas só foi registrado em 1963.
Natural de Marília, ele começou a usar entorpecentes aos 8 anos. "A minha mãe se separou do meu pai e me abandonou. Eu fui criado solto na rua, lá no Morro do Querosene", relata. Na juventude, ele se reaproximou da mãe e os dois se mudaram para Paulínia, onde viveram até ela falecer. Depois, Antônio resolveu vir para Bauru.
O homem conseguiu alugar um canto, mas acabou despejado há cerca de três anos. Na rua, Antônio foi furtado e perdeu todos os documentos. Por isso, ficou sem qualquer renda até chegar ao Serviço de Acolhimento.
O homem deu entrada no local em 21 de agosto de 2020. Desde então, ele também diz não ter mais usado drogas.
Antônio dedica boa parte do tempo aos cães Mancha Branca, Tarzan e Vera Verão. Inclusive, os considera, hoje, a sua única família.
Em plena pandemia do novo coronavírus, Antônio também relata que se sente seguro, porque, finalmente, encontrou um lugar para ficar com os seus animais. "Quando eu cheguei ao ginásio, recuperei a esperança para recomeçar", finaliza.