O título do artigo de Rosana Poli neste espaço ("Sinceramente sincera", 19/9) me motivou a refletir sobre questões midiáticas do momento e a ser sincero e realçar a falsa atribuição etimológica à palavra que ela fez. Em comunicação, ainda mais agora, é importante a fonte verdadeira. Certo que muitos levam o adágio italiano se non è vero, è molto ben trovato (às vezes sem o advérbio de intensificação molto), ou seja, pode não ser verdadeiro, mas é [muito] bem contado ou inventado. Muitas mentiras correm soltas e até elegem presidentes. A comunicação não pode se furtar a essa simplicidade sem comprovação histórica e etimológica.
Em artigo de 13/9, ressaltei a necessidade de "fontes seguras de informação" e o artigo em discussão é um exemplo ilustrativo. O dicionário continua sendo uma dessas boas fontes. O Houaiss cita a convicção de "sincero" ser de origem sim (um só) cerus (que cresce), que resulta em um sentido de "desenvolvimento coeso". Ali também é apresentada a hipótese de ter sido originário do "sem cinza" apresentado pela autora, mas que é totalmente desprovida de comprovação, o que é chamado de "etimologia popular". Vejam que o dicionário faz o que sites importantes de boatos e fakenews estão fazendo, ou seja, apresenta a fonte segura juntamente com as versões sem sustentação histórica. Versões nebulosas e cinzentas, com o perdão do trocadilho, devem ser conferidas. Creio não ter sido intenção, mas desatenção.
O próprio Malba Tahan citado no artigo de Rosana - é bom que se esclareça - é pseudônimo do talentoso escritor, que viveu por um bom tempo em Queluz, Júlio Cesar de Mello e Souza. Como eu, muitos tiveram contato com seus escritos na juventude e somente depois vieram a descobrir o nome por trás da lenda criada. A sinceridade expressa é a íntima, aquela que devemos a nós mesmos. A questão é agravada quando não se é sincero com a sociedade, ignorando posições que possam ser favoráveis a uma maioria ou mesmo quando em uma singela pesquisa de opinião falta-se com a sinceridade na resposta, alimentando fictícios aumentos de aprovação de governantes. Mesmo que a necessária transparência do vaso que nos contém não seja a base etimológica da palavra, sejamos mais sinceros, lógicos e honestos em nossas escolhas.
O autor é pesquisador na Unesp adilson.goncalves@unesp.br