"Um homem tem a cara do seu tempo mais do que a cara do seu pai". Fico devendo a autoria. Li a frase numa crônica do Veríssimo, mas ele não sabe onde a leu. Perdeu-se o autor, mas não, a inteligência, tampouco o seu fino humor. Fica, todavia, a triste constatação de que a cara que temos, sendo a cara do nosso tempo, é bem feia.
No passado, tínhamos a cara do nosso pai, que devíamos, acima de tudo, honrar. Os pais de antigamente tinham, como dever inescapável, o ato de imprimir, na cara do filho, o selo da vergonha e da honradez. Por nada deste mundo, o filho poderia macular a dignidade familiar construída ao longo do tempo.
Mais valia o sobrenome do pai que o nome do filho; o passado escrito pelo pai do que o presente, ainda por escrever do filho. Era um tempo de tamanha dignidade que se dizia que um simples fio de barba era suficiente para honrar um negócio. O tempo passou e o fio de barba foi, descaradamente, da cara giletado.
Sei que é caretice essa coisa de achar que, no passado, tudo era melhor. Afinal, a vida anda pra frente e muita coisa mudou pra melhor. Sei que os irônicos zombam desse tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Mas sei, sobretudo, que, no campo ético, muita coisa mudou pra pior. É com algemas de ferro, não mais com linguiça, que se amarram os cachorrões criminosos. Nas imagens da tevê, eles escondem as mãos algemadas, enrolando-as num pano qualquer. A cara não fazem questão de esconder, nenhum sinal de vergonha há nelas. Fazem o que toda canalhada faz, aproveitam-se da oportunidade de estarem no poder, só isso. É assim que tentam justificar a ladroagem a que se entregaram. Como todos, só querem se dar bem. Ser preso, dizem, faz parte do jogo, mas isso eles deixam com os excelentes advogados, então regiamente dolarizados.
O que assusta é o pedigree dessa cachorrada: magistrados de toga negociam sentenças nos cantos escuros dos tribunais; líderes religiosos movimentam contas bancárias milionárias e assaltam os fiéis nos próprios templos; autoridades governamentais superfaturam respiradores e anestésicos, em tempos de pandemia; médicos mafiosos, mancomunados com empresários do mal, instalam órteses e próteses em pacientes que delas não necessitam...
Estarrecida com o caldo sujo que escorre dos noticiários da tevê, a população assustada e saqueada já não sabe a quem recorrer, menos ainda em quem votar. Ultrapassamos todos os limites da decência. Como é feia a cara do nosso tempo! Antes tínhamos a cara dos nossos pais; agora temos essa cara horrorosa do nosso tempo.
Uma tremenda cara de pau.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.