É preciso desviar os olhos do agora, evitando criar soluções para questões ligadas à pandemia, e passar a pensar naquilo de que o mundo vai precisar daqui a dez anos. Essa é a recomendação que Michael Seibel, sócio e diretor-executivo da Y Combinator, uma das maiores aceleradoras de startups do Vale do Silício, dá para os que estão desenvolvendo e lançando suas empresas no mercado atual.
"Com muita frequência, fundadores se enganam e tentam reagir aos eventos presentes sem pensar no que poderá acontecer depois", diz Seibel, que é cofundador das startups Justin.tv (hoje Twitch.tv) e Socialcam. A YC, como a aceleradora também é chamada, ajudou a lançar no mercado gigantes como Airbnb, Dropbox e a colombiana Rappi.
Nesta entrevista, Seibel fala sobre as oportunidades e desafios das startups de todo o mundo em meio ao contexto de pandemia e crise.
Existem ingredientes obrigatórios para criar uma startup bem-sucedida?
Michael Seibel - A melhor citação que ouvi sobre isso é que todo negócio bem-sucedido é um pouco único. A pessoa faz algo um pouco diferente, que se alinha no lugar e momento exatos. Não se pode olhar para as startups como uma ciência porque não dá para repetir experimentos. Na YC, muito do que tentamos fazer é ajudar os empreendedores a evitar o caminho do fracasso. Se você conseguir contornar durante o tempo necessário os erros comuns, talvez encontre seu caminho único para ser bem-sucedido.
Quais são maiores desafios para quem está começando?
Michael Seibel - O maior deles é tentar não criar um produto voltado para o momento atual. Felizmente, não vamos conviver com o coronavírus pelos próximos dez anos. É preciso pensar naquilo de que o mundo vai precisar no futuro. Com muita frequência, fundadores se enganam e tentam reagir aos eventos presentes sem pensar no que poderá acontecer depois.
É possível prever algumas dessas tendências?
Michael Seibel - Na YC, não entramos com alguma tese formada sobre como o mundo será daqui a dez anos. Acreditamos que os empreendedores vão criar esse futuro. Queremos ouvir a opinião deles. Então, o que procuramos? Em primeiro lugar, se a equipe é técnica e tem as habilidades necessárias para desenvolver o produto. Em segundo, vemos a relação entre os cofundadores. Eles se conhecem pessoalmente e profissionalmente, têm uma relação que os levará a se apoiarem em meio à dificuldade de se criar uma startup? A terceira coisa que analisamos é o progresso ao longo do tempo. Nos orientamos na direção de empreendedores que criam, lançam e aprendem, em vez dos que passam tempo demais planejando. O quarto ponto é quão bem eles comunicam suas ideias. Um fundador tem que recrutar, vender e motivar pessoas. O truque é saber se comunicar de forma clara e concisa, com uma linguagem que vai impactar o público. O quinto e último quesito é descobrir se esses empreendedores sabem algo que os outros não sabem. Aqueles que trabalharam com um determinado problema em sua comunidade costumam ter muito mais visão criativa para chegar a uma solução.
A pandemia afetou a forma como a aceleradora opera?
Michael Seibel - Deixamos de ter uma seleção presencial e passamos a atuar online. O resultado foi extremamente positivo. Estamos no mercado há 15 anos, e a possibilidade de trabalhar remotamente nos permitiu repensar muitas coisas que continuávamos fazendo só porque já fazíamos assim antes. Claro que isso também tornou a aceleradora mais acessível a empreendedores internacionais, que não precisam mais ir até San Francisco. Mudar para o trabalho remoto aumentou significativamente o tempo que passamos com eles. São 15% de horas a mais para orientação do que normalmente. Devemos incorporar muito do que estamos aprendendo neste tempo de pandemia quando tudo isso acabar.
O que você aprendeu após trabalhar tanto tempo com startups?
Michael Seibel - Que as pessoas julgam empresas muito cedo. Numa seleção típica para a YC, há de 12 a 15 mil candidatos. Só 200 conseguem entrar. Pensar que é possível distinguir rapidamente as 200 melhores entre 12 mil é muito complicado. O que tem sido mais surpreendente e inspirador para mim são startups que não entram no primeiro ou segundo ano, mas, apesar de todo mundo tê-las descartado, acabam conseguindo.