09 de julho de 2026
Geral

'Eu sonho em ter o meu lugarzinho'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Das famílias que não sabem quando conseguirão viver em habitações melhores às que estão mais próximas de concretizar este sonho, o sentimento que alimenta o dia a dia é a esperança. Em meio a dificuldades para ter acesso a recursos básicos, como rede de esgoto e banho quente nos dias mais frios, estes moradores de Bauru também enfrentam, não raras vezes, o preconceito e um caminho cheio de obstáculos para conquistar condições um pouco mais dignas de vida.

Os relatos ouvidos pela reportagem do JC reforçam históricos repletos de escassez, mas também de crença na mudança. "Meu sonho é ter um lugarzinho para mim e minha família, uma casinha organizada e com a certeza de que é minha. E eu sei que nada é de graça", afirma Marieta Roque de Souza Meira, 43 anos, auxiliar de limpeza que está desempregada e vive de 'bicos' para manter os três filhos e uma neta.

Moradora há 40 anos da ocupação do Jardim Europa, que é vizinha das áreas que ficam no Parque das Nações e atrás do Residencial Ilha de Capri, ela conta que ficar sem água quente no horário de pico é algo considerado normal. O difícil mesmo é o preconceito sofrido por quem mora na comunidade. "Na hora de procurar serviço, se eu falo que eu moro aqui, vou ser mal interpretada e perder a chance de ficar com a vaga. Já aconteceu isso muitas vezes", relembra.

ÁGUA QUE INVADE

Há 20 anos vivendo na ocupação existente nos fundos do Ilha de Capri, Valdevido Miranda, 68 anos, também destaca o risco que os moradores correm na época de chuvas, já que as casas ficam próximas do Córrego Água da Ressaca. "Todo ano, a gente sofre; a água invade a casa de muita gente e quem mora próximo do córrego ainda corre o risco de perder parte do quintal. Já vi morador gritando de desespero. Todo mundo gostaria de ter a oportunidade de sair daqui", conta.

Vítima de violência doméstica, Vanessa da Silva Vieira, 33 anos, fugiu de Agudos para o Jardim Andorfato, em Bauru, com os três filhos, com a esperança de construir um uma nova vida. O desejo é poder se mudar para um dos 144 apartamentos de interesse social do Residencial Manacás, para onde também serão remanejados, talvez ainda neste ano, moradores do Parque Jaraguá.

"Sou mãe solteira, não trabalho porque não tenho com quem deixar meus filhos, mas recebo pensão dos dois mais velhos e conseguiria pagar as parcelas. Tudo o que mais quero é ter meu teto e a certeza de que meus filhos terão um lugar para viver depois que eu morrer. É o que eu peço a Deus todos os dias", diz.

MUDANÇA

A certeza de ter a escritura da própria casa em mãos também é, para estas famílias, a garantia de que qualquer investimento no imóvel não será perdido. Moradora da ocupação localizada no Jaraguá, Maria Aparecida de Souza Pereira, 74 anos, divide com as duas filhas um mesmo terreno, onde estão construídas três pequenas residências.

Cada uma destas mulheres espera conseguir um apartamento no Manacás, residencial que elas conseguem avistar do portão de casa. "As condições aqui não são boas, não tem asfalto, calçada. Estou cansada. Mudar daqui é mudar de vida, saber que eu tenho algo que é meu. Espero que um apartamento seja reservado para mim", sonha Maria.