09 de julho de 2026
Cultura

Mostra de SP dribla crises e traz formato online

FolhaPress
| Tempo de leitura: 4 min

Foi um ano de dificuldades para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Não só por causa da pandemia, mas pelo desgaste na relação do governo federal com o setor cultural e por perdas de patrocínio.

Mesmo assim, a organização anunciou no último sábado (10) uma programação robusta para sua 44ª edição, que acontece entre 22 de outubro e 4 de novembro e terá cineastas de peso, como Ai Weiwei, Tsai Ming-liang, Lav Diaz e Mohammad Rasoulof - nomes que já haviam sido antecipados no início da semana.

"Há um sentimento de luto no país. Este não é um ano de festa, mas de adversidade e resistência", disse Renata de Almeida, diretora do evento, a este jornal, dias antes do anúncio da programação.

Nesta edição, por causa da pandemia, a Mostra vai ocorrer majoritariamente online. Para isso, desenvolveu uma plataforma de streaming exclusiva. O valor do ingresso virtual para cada filme é de R$ 6. Trinta produções serão exibidas gratuitamente -em parceria com o Sesc e a Spcine.

Diferentemente de outros festivais de cinema que aconteceram recentemente no Brasil, a Mostra não terá "sessões", com horários específicos para cada título. A organização optou por disponibilizar todos os filmes na plataforma a partir das 20h do dia 22.

A exceção é o longa de abertura, "Nova Ordem", do mexicano Michel Franco. Ganhador do prêmio do júri do Festival de Veneza deste ano e descrito como polêmico por Almeida, ele ficará disponível a partir de 0h01 do dia 23 e poderá ser visto por 24 horas.

Já os demais filmes poderão ser vistos até que uma cota de público seja preenchida -na maioria dos casos, 2.000 pessoas. Ou seja, só os primeiros 2.000 espectadores que comprarem ingressos para determinado filme poderão vê-lo.

"É a mesma lógica das salas de cinema", diz a diretora. Por isso, é preciso ficar esperto para garantir ingressos, já que a quantidade de filmes caiu significativamente. Se no passado eram pouco mais de 300, agora a lista é formada por 198 produções -reflexo de adversidades financeiras que o evento enfrentou.

"A gente perdeu patrocinadores importantes, o que é compreensível pela pandemia. Estamos com um terço do orçamento. Claro que não temos gastos com passagem e hotel para convidados, mas tivemos gastos com essa nova plataforma e com um site melhor", diz Almeida, que chegou a pedir um empréstimo em nome da Mostra.

Mesmo sem a presença de atores e realizadores internacionais, que costuma conferir glamour à programação, a seleção internacional é caprichada, com muitos títulos selecionados por festivais recentes de renome mundial.

Da Berlinale, há o vencedor do Urso de Ouro, "Não Há Mal Algum", de Mohammad Rasoulof; "Dias", de Tsai Ming-Liang; "Sibéria", de Abel Ferrara; "Nadando até o Mar Se Tornar Azul", de Jia Zhangke, autor do pôster desta edição; e "Todos os Mortos", de Caetano Gotardo e Marco Dutra.

De Veneza, aterrissam "Gênero, Pan", de Lav Diaz, e "City Hall", de Frederick Wiseman, homenageado pelo evento. Da seleção de Cannes, há "Mães de Verdade", de Naomi Kawase, e o brasileiro "Casa de Antiguidades", do estreante João Paulo Miranda Maria.

Documentários que falam sobre a pandemia também têm vez na programação. Além de "Coronation", longa do artista e ativista chinês Ai Weiwei que registra o lockdown do epicentro do novo coronavírus, em Wuhan, na China, há ainda "Sportin' Life", do americano Abel Ferrara.

E a situação política atual do Brasil também contaminou o evento. Neste ano, a Mostra dará o prêmio Humanidade, destinado a personalidades que sustentam valores humanistas, aos funcionários da Cinemateca Brasileira -profissionais que passaram meses trabalhando sem salário, devido aos impasses do governo federal com o órgão.

"Acho que este governo elegeu a cultura como inimiga. Desde as eleições existia uma questão de escada -você precisa de um inimigo para fazer de escada, para aparecer. A cultura continua fazendo esse papel", acredita a diretora.

"Falta ao governo entender que uma coisa é propaganda, outra coisa é arte. A arte vive do conflito, principalmente o cinema", completa Almeida.

No campo da exibição, a principal novidade desta edição é a participação de cinemas drive-in, com o Belas Artes Drive-in e o cinema a céu aberto do Sesc. No evento de apresentação da programação, Almeida afirmou que a decisão de fazer sessões presenciais apenas nos drive-ins foi tomada para proteger o público contra o coronavírus.

As salas de cinema brasileiras, disse, já são naturalmente pequenas, com cerca de 150 assentos, em sua maioria. Com as limitações da reabertura no pós-pandemia, enfim autorizada nesta sexta-feira (9), a quantidade de poltronas a serem ocupadas seria ainda menor -sobretudo considerando-se que os títulos costumam ser negociados por número de sessões, quatro ou cinco no máximo.

A lista completa com todos os filmes que integram a seleção da Mostra pode ser vista na página http://44.mostra.org.