Com a alta no preço de materiais e a dificuldade em encontrá-los, empresas que produzem roupas ou móveis precisaram ajustar a operação: fazer compras maiores, diminuir a margem de lucro, estender o prazo de entrega e renegociar orçamentos. Diferentes fatores explicam a situação em cada setor, como a escalada do dólar e a velocidade com que as indústrias conseguiram retomar a produção depois da quarentena.
Desde maio, Francisco Santinho, 46 anos, redobrou a consulta a fornecedores de São Paulo, onde está sua produção, para conseguir encontrar tecidos que levam algodão na composição, caso de cambraia, sarja e tricoline. Santinho também tem enfrentado um aumento nos preços que chega a 30%, a depender do material.
Mas não há escassez de algodão, já que o país teve produção recorde da matéria-prima neste ano, diz Lucilio Alves, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Mesmo assim, o preço não caiu, porque a taxa de câmbio elevada favoreceu a exportação. Além disso, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) avalia que é preciso tempo para que todos os elos da cadeia de produção no país voltem a funcionar de forma sincronizada e atendam a demanda acumulada. A entidade prevê regularização em três meses.
Em relação aos preços, a associação afirma em nota que o setor tem mais de 70% dos custos atrelados a moedas estrangeiras em insumos como fibras e corantes. Com a desvalorização do real, há reflexos em fios, tecidos e malhas. Para lidar com esse cenário, Francisco Santinho passou a fazer compras maiores de tecidos e reduziu a variedade de estampas e cores para melhorar a capacidade de negociação com fornecedores e garantir a produção. A empresa também teve de achatar sua margem de lucro em cerca de 40% na tentativa de absorver a alta nos custos. "Resolvemos fazer isso para a mercadoria circular. A gente não ganhou, mas temos fluxo de caixa para reinvestir", diz.
O empresário deve olhar o fluxo de caixa do negócio antes de decidir como contornar o problema, diz Artur Motta, professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). Para as contas não ficarem descobertas, pode valer a pena reduzir a margem de lucro. Porém, ao readequar sua operação ao mercado em crise, é necessário estar atento para não ter prejuízo.
Se for preciso comunicar a alta de preço ao consumidor, o empreendedor deve mostrar quais iniciativas tomou para amenizar o problema. "Isso mostra que ele fez a lição de casa e, de certa maneira, explora a solução, e não o problema", diz Elber Mazaro, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA). Quando possível, é interessante oferecer uma compensação ao cliente, como frete grátis, atendimento personalizado ou garantia estendida.