Pode ser reflexo dos tempos, mas é difícil não pensar em um hospital de campanha ao avistar o local onde a peça "Protocolo Volpone", da Bendita Trupe, é encenada. Ali, dispostas em círculo, estão 20 cabines de plástico transparente. Quem guia os espectadores até elas são os próprios técnicos da montagem, membros das equipes de direção, figurino e cenografia que, vestindo jalecos brancos de médicos, foram apelidados de "anjos de proteção".
O espetáculo é o primeiro a estrear presencialmente em São Paulo na pandemia - apesar de a prefeitura ter permitido a volta dos teatros no início do mês, menos de dez palcos da cidade reabriram. Talvez por isso, adotou medidas bem mais estritas de proteção contra o coronavírus que aquelas recomendadas pelas autoridades.
A peça é encenada ao ar livre, no estacionamento do teatro Arthur Azevedo, na Mooca. Os atores usam máscaras e não se tocam, interrompendo seus movimentos no ar, centímetros antes de encostarem no corpo alheio - as únicas interações são entre Daniel Alvim e Helena Ranaldi, um casal na vida real.
Objetos de cena são duplicados e passados de mão em mão pelos "anjos de proteção". Ainda assim, boa parte do elenco leva a tiracolo um spray de álcool 70%. Os cuidados são tantos que acabaram contaminando também o título da peça, que de "Volpone", simplesmente, virou "Protocolo Volpone, um Clássico em Tempos Pandêmicos". Sem falar no próprio texto, que incorporou cacos e até uma música sobre o coronavírus.
"Tinha um pouco essa ideia de que 'Volpone' é a própria febre da peste, e aí os sentidos são vários: a pandemia, mas também todas as pestes que estamos vivendo no mundo contemporâneo", diz a diretora Johana Albuquerque, acrescentando depois que o próprio texto foi escrito num período de surtos de peste.
Tantas precauções representaram ainda desafios inéditos para o pessoal da Bendita Trupe, alguns dos quais não tinham saído de casa nem para ir ao supermercado. E para o público que estiver disposto a conferir a experiência com jeito de ficção científica.
A figurinista Silvana Marcondes conta, por exemplo, que o modelo das máscaras teve que ser testado seguidamente para acomodar microfones sem perturbar a dicção dos atores. Estes, por sua vez, usam o olhar e gestos efusivos para tentar dar conta das expressões a máscara oculta. À plateia, resta o desafio inicial de entender os diálogos sem o amparo da leitura labial, e a claustrofobia das cabines individuais, cujo plástico limita e distorce a visão.
"Volpone" foi escrita no início do século 17 pelo inglês Ben Jonson, contemporâneo de Shakespeare. Ambientada na Veneza da época e com referências à commedia dell'arte, conta a história de um ricaço que finge estar à beira da morte para se divertir com os bajuladores que fazem fila para garantir uma menção no seu testamento. Como Volpone, trocadilho com "volpe", raposa em italiano, todos os personagens têm nomes e traços animalescos.
É uma pegada um pouco diferente das montagens inspiradas em fatos reais mais conhecidas da Bendita Trupe - eles já encenaram peças sobre a corrupção no governo Collor e tráfico de drogas, por exemplo. Mas, como elas, "Volpone" também é uma comédia. Albuquerque diz que o gênero, que ela define como um olhar crítico sobre o drama, pode ajudar a encarar o contexto com mais tranquilidade.
"Como fazer uma comédia em plena pandemia? Como falar da ganância, da morte?", questiona. "Não suportaríamos falar desses assuntos neste momento por um viés dramático."
Albuquerque afirma que a própria curta temporada de "Volpone", de apenas três semanas, será encerrada caso alguém da equipe seja diagnosticado com coronavírus. Mas com esse risco, por que se apresentar então? A diretora afirma que o esforço a companhia fez para estrear neste momento é uma tentativa de encontrar um "caminho do meio", e mostrar que o teatro é possível "mesmo que de uma forma estranha".