09 de julho de 2026
Articulistas

Amar, nossa eternidade possível

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Seis filhos, doze netos, dois bisnetos. Setenta e seis anos de casamento. Bodas de cipreste que, pelo tempo de convivência, inclinava-se na mais fina reverência ao amor envolvido. Os filhos guardavam, no álbum de fotografia, um inventário do que viveram. O passado os visitava em gargalhadas compridas, interrompidas por dedos afoitos que buscavam reconhecer pela roupa e pelo cabelo a vida da época.

Desde o início, um namoro calmo quietava na cidadezinha de nuvens paradas. Às vezes, um briga riscada pelo ciúme cortante era compreendida pela separação precavida entre um dia e outro. Ainda assim, a boa convivência do casal era admirável. Bocas pernaltas em fofocas acompanhavam o namoro dos dois, até quando um deles, ao dobrar a esquina, agitava os braços de despedida. Dava pra ver a curiosidade gorda da vizinhança.

Do noivado ao casamento, um Ford conduzia os passeios parcelados. Degrau por degrau. Do aluguel à casa própria, os desafios longos de conquistas lentas. O trabalho. O ordenado. No álbum preto e branco, a família vestia simplicidades abotoadas com gratidão. Aos 76 anos, o relógio farto batia por comemoração. A companhia de uma vida obstinada a amar desimpediu que a longa idade caminhasse lenta ao reconhecimento conjugal. Do amor antecipado de quem ama, mesmo quem esquece os óculos no banheiro, as chaves de casa dentro do carro. Da inutilidade de trocar o nome dos filhos, de esquecer a luz acesa, de desemparelhar as meias, Do amor irrestrito que reconhece resíduos da noite pela casa, do café esquecido na toalha branca flagrada com resíduos de conversas. Dos respingos adormecidos no espelho de uma Colgate à boca ocupada pela nobreza de sorrir bom dia. Do passageiro ao permanente. Dos beijos que, embora comprometidos, não sonegaram à insônia bocas de luares, amanhecidas de poesia e afeto. Do amor-florescer, da orquídea que, ao pedir à árvore para alugar um pedaço de seu tronco, paga-lhe em beleza desfolhável.

Na eleição pelo aniversário, data notável ao evento marcante. Dia da pátria daria muita bandeira. Dia do folclore repercutiria numa comemoração sem pé nem cabeça. Dia do sexo? Gozado isso. Se o amor é uma arte, melhor festejarmos em estado de plenitude, em liberdade sem rima.

Dia da poesia! Prosa não nos faltaria.

 O autor é professor do colégio Tesla, autor de artigos didáticos e antologias da Língua Portuguesa